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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Yana Smerdova, vencedora sub-20 em Podebrady

O triunfo de Smerdova na Taça da Europa de Marcha de Podebrady.
Fotos: Comité organizador local. Montagem: O Marchador
Yana Smerdova, sem país, sem hino nacional, sem treinador, competiu sob bandeira neutra e triunfou na prova de 10 km sub-20 da Taça da Europa de Marcha em Podebrady, na República Checa.

Jovem de 19 anos, natural de Penza, Rússia, levantou os braços ao cortar a meta no domingo, dia 21 de Maio, superando todas as adversárias na última volta, mas sem equipa de apoio para partilhar a sua alegria.

De regresso a casa concedeu uma entrevista ao diário desportivo russo «Sport Express» com respostas bem ponderadas e acertadas.

Em 12 edições de Taça da Europa de Marcha foi a primeira vez que um vencedor de uma prova não vestiu as cores do seu país, não ouviu o hino nacional nem viu a sua bandeira ser hasteada …

À pergunta se sentiu-se triste, respondeu com toda naturalidade que sim. Que lhe faltou o apoio do treinador, dos amigos, mas que estava pronta para ganhar. Disse ter feito uma prova inteligente com um «sprint» no último quilómetro, que se sentiu segura e queria mostrar que os russos continuam a ser bons marchadores apesar dos casos de doping, mas também há quem trabalhe bem.

Quando lhe perguntaram se não queria levar algumas fitinhas no cabelo ou pulseiras com a bandeira russa, Yana respondeu que patriotismo deve ser mostrado na prova, com bons resultados, preferindo não provocar a ninguém… Sonha com a obtenção de mínimos para as grandes competições internacionais e está segura que no próximo ano conseguirá fazê-los. Também já tem alguma experiência internacional pois em 2014 participou nos Campeonatos da Europa de Pista de sub-18 ficando em segundo lugar.

Durante a entrevista foi conseguindo evitar mais provocações da jornalista que várias vezes lhe perguntou se tinha alguma ligação a Saransk, inclusivamente nomeando-a «neta» de Viktor Chegin, já que o atual treinador Aleksey Voevodin foi atleta do Chegin durante algum tempo e também apanhado nas malhas do doping.

Mas a atleta lá foi dizendo que nunca foi convidada para treinar em Saransk e que não tem qualquer ligação com o Centro de Treino daquela cidade, apenas desejando mostrar que é possível fazer concorrência aos marchadores da Mordóvia.

Colaboração: Kristina Saltanovic

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Pedro Martins com 8 títulos nacionais nos 50 km marcha

Pedro Martins. Foto: Daniel Augusto
Montagem: O Marchador
Uma das grandes figuras da marcha atlética portuguesa na disciplina olímpica dos 50 km marcha é Pedro Martins, o atleta que mais títulos nacionais ostenta na distância. Bem como o maior numero de marcas abaixo de 4h00’00 (11), Representa o Centro de Atletismo de Seia (Guarda) desde 2000.

Em 31 edições dos Campeonatos de Portugal de 50 km marcha, que teve a jornada inaugural em Lisboa, no ano de 1985, com a vitória de José Pinto, do Clube de Futebol “Os Belenenses”, interrompida em 2016, numa decisão infeliz e, de certo modo, inusitada, o atleta de Seia alardeou a sua superioridade no período temporal de 1998 a 2003, conquistando então 6 títulos consecutivos. Em 2005 e 2015, sagrar-se-ia, de novo, campeão nacional.

Pedro Martins foi atleta internacional por 27 vezes, destacando-se as presenças nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, e de Atenas, em 2004. Com um recorde pessoal de 3.55.29 (12.º lugar), obtido na Taça do Mundo de Naumburg (Alemanha), em 2004, há a destacar, especialmente, a sua contribuição para a conquista da medalha de bronze de Portugal nos 50 km marcha da Taça da Europa, disputada em Cheboksary (Rússia), onde foi o melhor representante luso com o 10.º Lugar.

Que memórias desse evento, que ficou gravado nas páginas douradas do atletismo português?

Sem dúvida, a multidão a assistir e a incentivar os atletas que durante 4 horas e tal, por ali marcharam e depois na entrega de medalhas, que ainda me pareciam em maior número.

Outra memória que guardo foi o facto de a organização pensar que, por ter acompanhado o 1.º classificado durante a sua última volta ao circuito, ia a discutir a vitória do evento, quando ainda me faltava 1 volta.

De que modo foste influenciado para a prática da marcha atlética?

Já fazia marcha esporadicamente nos treinos, especialmente no final da época, preparando os nacionais do INATEL.

Quando desisti na minha 5.ª maratona de corrida, resolvi dedicar-me exclusivamente à marcha. Para isto foi importante o conterrâneo Albertino Quinaz que vivia em Lisboa e que conhecia muito bem o José Urbano e o Luís Dias, e que tive a sorte de ser encaminhado logo para os “Melhores” do panorama nacional da Marcha Atlética.

Das tuas quase meia centena de provas de 50 km realizadas, destacas alguma que te tenha marcado de forma especial?

A 1.ª, Aveiro, por ser o 1.º Título Nacional e por ninguém estar a contar/acreditar com tamanha audácia minha de querer chegar ao fim, depois de saberem o quão pouco tinha treinado para a distância.

A última, em Castelo Branco por ser 10 anos depois do último título, por ser perto da Guarda, por nem eu à partida saber que estaria na meta, pois estava com uma gripe que se arrastava já há 2 semanas e pouco consegui treinar para a referida competição.

Claro, Naumburg 2004 também foi marcante, pois consegui recorde pessoal e mínimos olímpicos, numas condições atmosféricas adversas de muito calor, especialmente a partir da 2.ª metade da prova, onde muita gente não conseguiu concluir.

Que objetivos para os Campeonatos de Portugal (Porto de Mós), tu que és o atual campeão nacional (2015), este ano com dois títulos em disputa (35 e 50 km)?

Objectivos, objectivos…

Ora se pedi para me fazerem inscrição nas duas distâncias (penso ser condição necessária, bem como pagar as duas taxas), é ser campeão nacional nas duas (gargalhada). É pena não atribuírem logo o título de 20 km e 10.000 na passagem. Ficava o assunto resolvido…

Agora a sério, quero agradecer ao treinador Jorge Miguel por ter pedido a distância de 50 km Marcha para femininos por intenção de participação da atleta treinada por ele, Inês Henriques, pois sem isso duvido que os 50 km voltassem ao panorama dos Campeonatos Nacionais 2017.

Depois, ajudar a equipa do CAS colectivamente para uma classificação honrosa nos campeonatos.

O blogue «O Marchador» aproveita a oportunidade para felicitar Pedro Martins pelo aniversário de hoje, em que completa 49 primaveras.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Homologado recorde feminino brasileiro dos 50 km marcha

Edilaine Maria Vidotto Rech nos 50 km de Hilligdon.
Fotos: Mark Easton e «site» CBAt
A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) anunciou ontem, no seu «site» oficial, que a atleta  Edilaine Maria Vidotto Rech, com a marca de 5.31.40, registada no Festival de Marcha de Hillingdon, a 2 de outubro deste ano e a que fizemos referência na nossa peça, publicada no dia seguinte, estabeleceu o recorde do Brasil na distância.

Ao referido «site», Anderson Moraes Lemes Rosa, gerente do Departamento Técnico da CBAt, informa que “só agora pudemos confirmar o recorde, com a confirmação do resultado pela Associação Britânica de Marcha Atlética, entidade oficial filiada à Federação Britânica de Atletismo”.

A marchadora paranaense, nascida a 8 de março de 1976, em Santa Mariana, no Estado do Paraná, é treinada pelo também marchador Samir César Sabadim, que participou naquela competição, classificando-se na terceira posição, com o tempo de 4.47.35, a pouco mais de dois minutos do seu melhor registo (Dudince/2014).

O Marchador - Porquê a escolha pela especialidade da marcha atlética?

Edilaine Rech – A marcha atlética entrou em minha vida como recuperação de fisioterapia por conta de um acidente na infância. Para o desafio dos 50 km, chamamos de “Eu me movo de novo”. Foi realmente um grande desafio: superei a cadeira de rodas. Superei o preconceito. Chegamos aos 50 km. Mulheres podem!

OM - O tempo obtido nos 50 km foi resultado que ambicionava?

ER - O tempo previsto era para ser abaixo de 5 horas. Todos os treinamentos mostraram que faríamos na casa de 4h45, mas tive problemas com o ciático (por conta de um atropelamento que sofri de um ciclista). Os últimos 8 quilômetros de prova precisei encontrar uma forma de superar o enrijecimento dos músculos, e o endurecimento da perna direita, e não ter problemas com a arbitragem. Então, decidimos durante a prova, eu e o meu treinador, soltar a velocidade de forma a completar os 50 km.

OM – Que perspetivas?

ER – Bem, estou com 40 anos! Agora quero conseguir superar mais um ciclo e ver se suporto a construção para os 50 km nas próximas olimpíadas. Terei 43 lá. Mas estou muito bem fisiologicamente e a equipe quer que trabalhemos para chegar nas olimpíadas. Exclusivamente nos 50 km. Confesso que me sinto mais estruturada emocionalmente para esse trabalho. Me sinto madura e meu corpo tem suportado o trabalho e o descanso. Mas teremos de fazer uma escolha: somente treinar!

OM – É difícil conciliar a atividade profissional com os treinos?

ER – Hoje me divido em ser professora, gerir, administrar um instituto social que presido. E estudo à noite. Tenho tempos muito corridos para os treinamentos longos dos 50 km. Mas queríamos fazer história. Fizemos! E porque não pensar nas olimpíadas? Lutamos tanto por isso, não!? Quantos tentam desmotivar a marcha atlética! Precisamos construir e motivar as mulheres para crescermos e termos quórum para termos a prova já em Tóquio.

Edilaine, na primeira pessoa, a agradecer ao seu treinador “meu grande incentivador e preparador para a prova”, nos mais de dois anos de trabalho, com os últimos nove meses a preparar-se especificamente para a competição, do desafio que a orientou “Eu me Movo de Novo”, que constitui um exemplo, para si e para todos aqueles que superaram traumas físicos e emocionais. Não esqueceu, ainda, de frisar o papel determinante desempenhado pela atleta norte-americana, Erin Taylor-Talcott, pelo direito à igualdade, também no desporto.

Para meu combustível, escolhi o Pedrinho, um bebê (de Sertanópolis) com uma doença rara. Criamos uma página para captar recursos para seu alimento. Me movi por uma causa nobre. Em cada quilômetro me lembrava do projeto inicial, dos meus tempos de cadeiras de rodas, das cicatrizes, das queimaduras...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

José Magalhães na Assembleia Geral da FPA

José Magalhães. Foto: fb Carlos Pereira
José Magalhães, um nome incontornável da marcha atlética portuguesa, talvez o atleta que mais vezes disputou a prova olímpica dos 50 km marcha - fê-lo por 42 vezes, participou na Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Atletismo, recentemente realizada em Pombal (2 de Abril), na qualidade de diretor da Associação de Atletismo do Porto.

Na Assembleia foi discutida e aprovada uma proposta apresentada pelo Setor de Marcha da FPA no sentido de ser substituída do programa dos Campeonatos de Portugal a prova dos 50 km marcha, que este ano já não fez parte dos referidos campeonatos, e a sua substituição pela prova dos 35 km, e homologando a atribuição do título nacional nesta distância, que teve lugar em fevereiro deste ano.

Regista-se a opinião de José Magalhães (JM), treinador, e atleta olímpico em Barcelona 1992 e Atlanta 1996.  

OM – Em que sentido foi a tua intervenção na Assembleia?
JM – Intervi em defesa da disciplina da marcha atlética, discordando da proposta da FPA, que a justificou pelo facto de existirem poucos atletas interessados em a fazer. O novo modelo foi apresentado pelo Prof. Jorge Vieira, presidente da FPA, por quem tenho elevada estima e que, enquanto era eu atleta e ele diretor-técnico nacional, em algumas participações internacionais em que esteve, deu-me todo o apoio possível, e isso não o esquecerei.

OM – A tua experiência na distância foi revelada?
JM – Salientei, na mensagem, que na minha primeira experiência na distância, nos campeonatos de 50 km marcha, fiz a prova em 4 horas e cinquenta e sete minutos (fixaria o meu recorde pessoal em 3.57.30) mas que se fosse realizada, então, a prova de 35 km, duvido que me dedicasse aos 50 km. Nesses tempos treinava-me limitadamente, uma vez por dia, e ainda era treinador de um grupo de atletas.

OM – Qual o sentido de voto dos representantes das Associações?
JM – Pelo menos as Associações do Porto, Setúbal e Algarve votaram contra a proposta da FPA, referindo o representante da AA Algarve, Prof. Lara Ramos, que a diferença da participação na prova dos 35 km deste ano e na dos últimos 50 km dos campeonatos nacionais não foi significativa. Este aspeto foi contrariado pelo Prof. José Costa, coordenador juvenil na FPA, que disse terem sido 22 atletas a participar nos 35 km, mas na verdade foram apenas 13, com 11 a concluírem a distância! Foi ainda curiosa, no mínimo, a intervenção do representante de Braga que disse achar bem os 35 km porque temos marchadores a fazer 50 km em 3h 09 min. (!) e os últimos em 5 horas…

OM – Que conclusões relativamente a todo este processo?
JM – Entendo que a decisão emanada da Assembleia não constituiu nenhuma derrota para a marcha atlética na medida em que o presidente da FPA vincou que se o número de especialistas aumentar será reposta a prova dos 50 km e julgo que todos deveremos lutar por esse objetivo, a bem do atletismo. No tempo em que o Luís Dias era o treinador nacional já havia a prova de 35 km, integrada nos Campeonatos de Portugal como forma de transição, no escalão de Sub-23. Com a entrada do atual técnico nacional a prova foi substituída pela distância de 20 km, o que não discordei de todo dada a escassez de provas dessa distância por via do desaparecimento de Grandes Prémios. Antes consultavam-se os treinadores o que atualmente não acontece!

OM – Achas que se tem feito o suficiente pela marcha atlética no nosso país?
JM – Para uma federação que tem um técnico nacional de marcha requisitado (Carlos Carmino) mais se devia e podia fazer pela disciplina, a exemplo do que sucedia no passado. A qualidade dos atletas de hoje deve-se, em grande parte, a isso. Veremos daqui a poucos anos!

sábado, 16 de abril de 2016

Jonathan Riekmann (Brasil) – Entrevista

Jonathan Riekmann.
Jonathan Riekmann é uma das figuras em destaque no atletismo brasileiro e especialmente na disciplina da marcha atlética. Especialista na distância olímpica dos 50 km marcha, competindo recentemente em Dudince (Eslováquia), estabeceleu um novo recorde brasileiro ao obter a marca de 3:55:26, realizando mínimos para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro este ano.

O anterior recorde brasileiro era de 3:55:36 e estava na posse de Mário José dos Santos Junior desde 21 de março de 2015, também estabelecido em Dudince, cujo percurso e as condições atmosféricas oferecidas são apreciados pelos marchadores. Os dois e Caio Bonfim (4:01:42) constituirão a seleção brasileira para o Rio de Janeiro na distância dos 50 km.

Riekmann, em entrevista concedida a “O Marchador”, respondeu às questões colocadas da seguinte forma:

OM – Quando e como surgiu a possibilidade de ingressares na marcha atlética?
JR - Em 2003 comecei a treinar marcha a nível competitivo. Antes de ser federado, eu já teria aprendido a técnica da marcha na escola. Treinei durante 2 anos corridas de fundo, e nesse meio termpo até fiz algumas sessões de marcha, mas nada definitivo. Até que um dia me lesionei numa prova de 2000m com obstáculos e não pude correr por uns dias devido a queda. Então fiz algumas sessões de marcha para não perder muito condicionamento, e aos poucos foi se notando mais potencial para a prova.

OM- Porquê os 50 km?
JR - Eu sempre gostei mais dos 50km, tenho características para a distância. Minha estreia foi muito precose na prova, aos 19 anos completei meu primeiro 50 km numa temperatura acima dos 35 graus e alta umidade. Foi a estreia mais jovem e rápida da história do Brasil. Não tive problemas em relação a isso, porque não fiz uma carga alta de treinamentos para essa competição. Mas hoje, com minha experiência, eu não recomendo isso a ninguém.

OM- Qual a sensação de conseguir o índice para os Jogos Olímpicos e de obter o recorde brasileiro na distância?
JR - Muito feliz em ter conquistado o índice e ter batido o recorde brasileiro. Todos os meses de preparação e o preço alto que tive que pagar, abrir mão de muitas coisas, hoje vejo que tudo valeu a pena. Ser atleta olímpico sempre foi um dos meus sonhos.

OM – Que prespetivas para o Rio de Janeiro, em agosto próximo?
JR - Eu sei das reais condições climáticas, estará mais difícil que em Dudince, mas eu vejo que temos carga de treinamento a serem incluídas, ainda não treinei tudo o que tinha pra treinar. Não vou estipular um tempo e colocação, mas acredito que posso melhorar o tempo no Rio. Não me recordo se algum brasileiro cinquenteiro já ficou entre os 20 primeiros. Seria uma boa colocação, mas sabemos da dificuldade. Vou buscar a evolução nos treinamentos, o nível que será alcançado, só saberei nas últimas semanas.

OM – Os apoios para a competição têm sido adequados às tuas necessidades?
JR - Minha cidade, clube, empresários é que apoiaram até conseguir o índice.
Depois que consegui o índice e bati o recorde brasileiro, continua a mesma coisa. Apenas as pessoas da minha cidade apoiam. Solicitei apoio a Confederação Brasileira de Atletismo e até hoje não tivemos nem respostas. Mas isso não vai mudar minha motivação, tenho pessoas que me ajudam muito na minha cidade, e tenho que focar na preparação. Meu macrociclo está definido até os Jogos Olímpicos e lá será o ápice, não vou mudar meu planejamento por causa de ninguém.

OM – Que provas se seguem até aos Jogos Olímpicos?
JR - Estou classificado para a Copa do Mundo nos 50km em Roma. Ainda não decidi se vou participar ou não. Fiz uma boa marca e isso me trouxe tranquilidade para se preparar ao Rio. Queria fazer umas provas em Maio, Junho na Europa de 20km como treinamento, mas como falei, dependo se a Confederação vai me apoiar ou não. Se não tiver apoio, não terá problemas, eu sei o que preciso fazer até os Jogos.

OM – Como vês a marcha atlética brasileira na atualidade?
JR - A Marcha brasileira vive seu melhor momento. Tivemos dois sextos colocados no último Mundial de atletismo. Medalhas nos Jogos Panamericanos ano passado. Boas posições nos challenges da IAAF. E nos 50km foram três anos consecutivos com quebra de recorde brasileiro. Grande feito foi da Érica que acabou de quebrar o recorde panamericano nos 20km feminino com expressiva marca 1h28:22.

O blogue “O Marchador” agradece a Jonathan Riekmann pela disponibilidade para a entrevista e formula votos de sucesso na sua participação no Rio 2016.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Amaro Teixeira (Covilhã, Castelo Branco) na primeira pessoa – parte II

Amaro Teixeira com uma boa parte do seu grupo de treino.
Foto: João Pinheira. Montagem: O Marchador
OM – Qual a sua opinião sobre a disciplina no distrito de Castelo Branco, no momento atual?

AT – Penso que neste momento no distrito de Castelo Branco há pouca ou nenhuma vontade por parte dos treinadores em darem treinos de marcha atlética ou em incentivarem atletas para tal. Penso que tenho sido um bom impulsionador desta disciplina e também um exemplo para quem vê. A marcha atlética requer alguma paciência e atenção, por exemplo a Inês, antes de começar a treinar comigo estava em outra equipa e tinha pedido para aprender marcha atlética, mas não teve quem a orientasse nessa área. Acho que andam por aí vários jovens que têm qualidade na marcha atlética, mas por algum motivo, acabam às vezes por nunca experimentar.

Há também a mentalidade por parte de muitos treinadores, que quando o atleta é bom nas outras disciplinas não pode treinar nem se especializar na marcha, porque a marcha segundo eles é para quem não é bom no resto, e com este tipo de pensamentos já perdi um jovem que tinha qualidades técnicas em tudo o que fazia, logo não optou pela marcha atlética, onde também tinha uma qualidade técnica exemplar e com enorme margem de evolução.

OM – Que haveria a fazer para o incremento do número de praticantes?

AT – Para o aumento de praticantes penso que, em primeiro lugar, devia haver alguma ação de formação e prática em que fossem todos os clubes do distrito só sobre marcha atlética e em que treinadores e atletas não tivessem receio em aprender e em ensinar.

Nesta ação de formação seria essencial também ter presentes 1 ou 2 atletas Olímpicos presentes a transmitirem os seus conhecimentos e experiências. Numa fase posterior penso que também fazer demonstrações nas escolas era importante.

Principalmente nos rapazes, deparo-me com um grande problema, eles terem medo de praticar porque se os amigos da escola sabem vão gozar com eles e alguns dizem mesmo que abanar o rabo é para as mulheres. Nos clubes do distrito atualmente, ou existe alguém com passado e experiência na marcha ou então a marcha atlética não é sequer ensinada. Neste momento apenas eu e a Liliana Martins apresentamos atletas que praticam esta disciplina.

OM - O que pensa da situação da marcha atlética no país?

AT – Acho que a marcha atlética comparando com os outros setores da Federação Portuguesa de Atletismo, está muito bem representada, por exemplo em termos de jogos olímpicos acho que é o único setor que nos últimos anos, tem apresentado 4 atletas do mesmo sexo e para a mesma prova com mínimos, ficando sempre 1 atleta em casa.

Em geral temos um lote de grandes atletas e em competições internacionais somos um dos setores com mais expressão. Só acompanho mais a marcha atleta há cerca de 3 anos e o que tenho visto é que vão sempre surgindo atletas de grande valia e por outro lado alguns ficam pelo caminho.

Para isso também têm contribuindo principalmente dois treinadores, Sr Jorge Miguel e Sr Paulo Murta, o trabalho deles é um exemplo para qualquer um, mas sem dúvida que também existem outros treinadores com grandes conhecimentos e que também vão surgindo com atletas, como o meu treinador, Carlos Carmino, o antigo técnico nacional Luís Dias, o João Gomes, o Manuel Silva, o António Pereira entre outros.

Mesmo assim com excelentes resultados e provas dadas em provas internacionais o nosso sector é um pouco desvalorizado e há quem diga que é mais fácil na marcha atlética atingir os mínimos e as competições internacionais. Também por exemplo a nível de prémios monetários em competições de marcha é uma discriminação grande em relação a provas de corrida que facilmente dão 200 ou 300 euros. No geral a marcha atlética acaba por ser um pouco olhada de lado e por exemplo quando se treina numa pista em que no relvado treinam futebolistas dos escalões de formação, existem sempre comentários negativos face ao gesto técnico da nossa disciplina. A mentalidade portuguesa está também formatada para o futebol e tudo o resto não é devidamente apoiado, temos excelentes atletas de várias modalidades que têm imensas dificuldades face aos do futebol.

OM – Que projetos tem em mente?

AT - Eu gostaria de ter um grupo de marchadores ainda maior, de vários escalões a treinar marcha atlética e a participar regularmente em competições, mas também não posso deixar para trás o meu sonho enquanto atleta que passa por conseguir representar Portugal numa fase inicial e depois de alcançar os mínimos para participar em Jogos Olímpicos. Ou consigo melhorar substancialmente nos próximos 2/3 anos a minha qualidade ou começa a ficar difícil.

Em 2017 também pretendia alcançar a qualificação para o Campeonato do Mundo Universitário. Enquanto treinador fico muito feliz com os êxitos que os meus atletas vão alcançando e tento transmitir as experiências que tenho vivido ao longo de 13 anos que estou ligado à modalidade. Sendo eu dos Açores, os meus atletas também vão sendo a minha família cá na Covilhã. Ambicionava também conseguir futuramente realizar um “Grande prémio de marcha atlética cidade da Covilhã” e que fosse uma prova que pudesse reunir alguns dos melhores atletas nacionais.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Amaro Teixeira (Covilhã, Castelo Branco) na primeira pessoa – parte I

Amaro Teixeira e Inês Reis, quando do O.Jovem-14.
Foto: Laura Taborda
O Marchador – Quem é Amaro Teixeira?

Amaro Teixeira – Tenho 26 anos, estou a viver na Covilhã e sou natural da ilha do Faial nos Açores. Comecei a praticar atletismo no Clube Independente Atletismo Ilha Azul (CIAIA), clube que disputava há uns anos atrás as fases finais dos nacionais de clubes e no setor da marcha tiveram vários anos, o conhecido Dionísio Ventura e mais tarde também o Pedro Marcelo Santos que atualmente representa o Centro de Atletismo de Seia.

Durante os 6 anos que pratiquei lá atletismo, antes de ingressar em 2008 na Universidade da Beira Interior, em Ciências do Desporto, treinei sempre direcionado para o meio fundo, fazia muitas competições de pista nas distâncias entre 800m e 3000m. Ao ingressar na universidade e com a participação nas competições universitárias é que surgiu a marcha atlética, com o objetivo de dar pontos para a equipa “aventurei-me” quase sem treinos de marcha a fazer e a terminar a prova de 10km/marcha em 2011 (1Hora19minutos), que foi quando a marcha voltou a ser integrada nestes campeonatos nacionais.

Em 2012 voltei com o mesmo objetivo, continuando sem treino específico de marcha, sendo que nesses campeonatos por terem sido desclassificados 2 atletas bons, o Luís Lopes e o Cristiano António, eu terminei no 3º lugar. Nestes campeonatos estava presente a assistir, o Técnico Nacional de Marcha da FPA, Carlos Carmino, que me conheceu e incentivou para que eu começasse a treinar marcha atlética e então passou a ser o meu treinador, e juntamente com a medalha que ganhei, este foi o ponto de viragem na minha carreira no atletismo enquanto atleta e também enquanto treinador.

Enquanto atleta marchador, representei o GCA Donas e em 2014 fiz, pela primeira vez, mínimos para uns Campeonatos de Portugal e após estes campeonatos ingressei na equipa do SC Braga e contribui para serem campeões da II Divisão Nacional em pista ar livre.

Na presente época ingressei num novo projeto, que é o do Leiria Marcha Atlética que além de querer desenvolver a marcha atlética, ambiciona apresentar classificações coletivas nas competições nacionais de estrada. A nível universitário já detenho 4 títulos de campeão nacional e o recorde nacional de 10km em pista ar livre. Também já completei por 3 vezes a dura prova de 50km/Marcha e não irei ficar por aqui. Enquanto treinador de atletas de marcha atlética, têm-me aparecido alguns atletas com grande determinação e vontade, falo por exemplo da Inês Reis e do Luís Pássaro, foram casos de atletas que na sua fase inicial de aprendizagem praticamente não conseguiam fazer 1 volta à pista a marchar bem e sem terem de parar. Também outro marchador que tem estado desde o início comigo e também pela ligação das provas nacionais universitárias é o Manuel Alves, com um pouco menos de determinação mas com boas qualidades técnicas.

Atualmente estou em doutoramento em Ciências do Desporto, também na UBI e no atletismo contínuo responsável pela equipa universitária e integrei-me esta época num novo projeto para o atletismo federado, cá na cidade da Covilhã, que envolve parcerias entre a Universidade, o CCD Leões da Floresta e o Penta Clube da Covilhã, sendo ainda atleta do Leiria Marcha Atlética.

OM – Em que contexto surgiu a possibilidade de orientar jovens marchadores?

AT – O GCA Donas funciona com um grupo de treino no Fundão e outro na Covilhã, comecei a treinar alguns jovens de várias disciplinas, mas nenhum de Marcha Atlética, em janeiro de 2013, porque o treinador na altura responsável pelos atletas jovens, Bruno Mangana, teve alguns problemas de saúde e foi-me pedido para além dos atletas universitários ficar também com os jovens da área da Covilhã. Em outubro de 2013 surgiu a jovem Inês Reis que pediu para aprender marcha atlética porque até já me tinha visto a treinar e achava giro. Atrás dela foram aparecendo mais alguns, e neste momento é mais fácil que alguém queira aprender porque já têm algumas referências.

O GCA Donas foi um clube que também contribuiu para a minha formação e conhecimentos, tinha como referência a conhecida marchadora, Liliana Martins, que ainda me transmitiu alguns conhecimentos. Atualmente no novo projeto em que estou, treino atletas entre Benjamins e Juvenis, em representação do Penta Clube da Covilhã. Entre os escalões de juniores e veteranos em representação do CCD Leões da Floresta/UBI e ainda oriento os atletas universitários.

OM – Quais os atletas que treina e as potencialidades dos mesmos?

AT – Começando pelos mais jovens, tenho atualmente algumas jovens que já praticavam Pentatlo Moderno, no clube onde agora estou, e ao verem a Inês Reis marchar quiseram experimentar, são as irmãs Rita e Mariana Poeta e a Leonor Gomes. Todas têm feito um pouco de tudo, são ainda muito jovens, a Rita é de 2008, a Mariana e a Leonor são de 2004. Conseguem executar um bom gesto técnico e a Mariana fez já prova de 1000m em 5min27seg e de 500m em 2min35, a meu ver resultados surpreendentes sem treino específico e para a sua idade. A Leonor tem uma estatura mais baixa e nota-se mais nos resultados nesta idade, mas à medida que for crescendo irá notar-se também nos resultados.

No escalão de iniciados tenho a dar os primeiros passos, o João Bernardo que tem feito treinos de velocidade e meio fundo, mas já completou duas provas de marcha atlética em estrada, sem treinos específicos, já regista 26min18 aos 4km, poderá vir a surpreender.

No escalão de Juvenis tenho a Inês Reis, que já não precisa de apresentações, conseguiu já algumas medalhas em campeonatos nacionais, mínimos para integração nas tabelas PAR da FPA e esta época deseja conseguir representar, pela primeira vez Portugal, no 1º Campeonato da Europa de Juvenis. Ela tem grandes potencialidades juntamente com grande determinação e vontade.

Também neste escalão tenho de referenciar a meio fundista Laura Taborda que já completou algumas competições de marcha atlética, como treino e para participar, e temos mais atletas praticantes de marcha atlética, sem prejudicar os seus objetivos, contando já na época passada com uma medalha de vice-campeã nacional em 2000m/Obstáculos.

No escalão de juniores destaco a grande determinação e evolução do Francisco Serra que com o treino da marcha atlética ganhou muita coordenação de movimentos e já apresenta níveis razoáveis de resistência, sendo que quando se juntou ao grupo não era capaz de dar 2 voltas à pista a correr sem parar. No mesmo escalão também tenho uma nova atleta, Laura Correia, que fez a sua estreia no passado dia 3 de janeiro em Oliveira do Douro, nunca tendo praticado desporto no passado, é também um novo desafio para mim e para ela, no futuro espero vê-la a completar várias distâncias e competições.

No escalão de Sub-23 tenho o Luís Pássaro que recentemente acabou a licenciatura de Gestão na UBI e foi trabalhar para a terra dele, sendo uma grande perda para o nosso grupo de treino, estando agora a treinar sem companhia de treino e com algumas limitações, uma delas é não ter pista de atletismo acessível para os horários de trabalho dele. Mas sem dúvida nenhuma que é um atleta com grandes capacidades e teve uma evolução surpreendente em cerca de 1 ano e meio de prática de marcha atlética.

No mesmo escalão o Manuel Alves está comigo quase desde o início que comecei a marchar, ele também evoluiu bastante e tem boa qualidade do gesto técnico, só falta mais alguma regularidade ao treino. Por fim e não menos importante, tenho a também sub-23, Jéssica Guerra, que tem apresentado grande evolução na sua técnica e também nos seus níveis de resistência, é também um caso de superação pessoal.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Susana Feitor: «Se for aos Jogos Olímpicos, ótimo, se não for, ótimo na mesma»

Susana Feitor. Foto: Record
A campeoníssima Susana Feitor, em entrevista concedida à agência noticiosa portuguesa LUSA, esta sexta-feira, na Sala de Sessões do Município da Batalha, declarou que vai lutar pela sua sexta presença nuns Jogos Olímpicos, dizendo-se ainda preparada, seja qual for a decisão dos técnicos da Federação Portuguesa de Atletismo para o Rio de Janeiro. Feitor foi uma das convidadas para a apresentação dos campeonatos nacionais de marcha de 35 km masculinos, que decorrerão no dia 23 deste mês, em Porto de Mós, com as restantes provas dos campeonatos, onde se incluem os 20 km masculinos e femininos (a FPA decidiu retirar do programa oficial a prova olímpica dos 50 km masculinos), no dia 27 de fevereiro, na Batalha. Com a devida vénia, “O Marchador” transcreve um excerto da referida peça: 

"Se for selecionada ótimo. Se não for, ótimo na mesma, porque estive na luta e já é bom", disse hoje a marchadora na Batalha, onde participou na apresentação dos campeonatos nacionais de estrada da especialidade.

Susana Feitor já tem mínimos para o Rio2016, mas luta por uma das três vagas disponíveis com Ana Cabecinha, Inês Henriques e Vera Santos.

"Já estou numa fase final da minha carreira, já não tenho os objetivos de outrora. Mas não deixa de ser um momento de exaltação", assume Susana Feitor, que quer lutar para estar entre as três escolhidas para marchar por Portugal nos Jogos do Brasil.

Aos 40 anos, prestes a completar 41 no final de janeiro, Susana Feitor assume estar empenhada no curso de Gestão de Organizações Desportivas, "muito importante para fazer a transição neste final de carreira".

Envolvida nas aulas, não sabe ainda se estará no primeiro nacional de estrada, de 35 km, dia 23 de janeiro, em Porto de Mós, mas seguramente participará no nacional de 20 km, na Batalha, a 27 de fevereiro: "Não venho com ambições de grande resposta competitiva, será mais para rodagem e fazer quilómetros. Estarei ainda longe da minha condição habitual."

Entretanto, e na mesma ocasião, o presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), Jorge Vieira identificou "pelo menos um atleta, para não dizer dois", que na marcha podem ter hipótese de subir ao pódio no Rio de Janeiro:

"Vão lutar por medalhas, porque já estiveram nos pódios em competições internacionais. João Vieira e Ana Cabecinha são atletas que, pela cabeça dos quais, deve passar o pensamento das medalhas."

Nota de “O Marchador”: Os nacionais de estrada de 35 km destinam-se apenas ao setor masculino, podendo Susana Feitor tomar parte nos campeonatos de Leiria, distrito onde se encontra filiada esta época.

domingo, 1 de novembro de 2015

Caio Bonfim comenta participação no Tour de Wuzhong

Caio Bonfim com os seus colegas de equipa Tiago
Fonseca e Mário dos Santos Júnior.
Um dos melhores especialistas mundiais na especialidade dos 20 km marcha, 6.º classificado nos mundiais de Pequim, o brasiliense Caio Oliveira de Sena Bonfim, que tem por objetivo disputar os Jogos Olímpicos do Rio 2016 lutando por uma medalha, foi um dos participantes no recente Tour de Wuzhong, prova disputada por etapas.

Em resposta a “O Marchador” o atleta brasileiro exprime de seguida as impressões que lhe deixou esta prova realizada na China, de singular significado.

1. Como define a experiência que constituiu a participação no Tour de Wuzhong?

Fantástico, um evento que valoriza a marcha atlética e onde podemos marchar com os melhores do mundo.

2. Aspetos positivos e aspetos a melhorar que gostaria de salientar quanto à organização do evento?

Grande organização porém precisamos de mais abastecimento e água gelada. Estrutura espetacular.

3. Quais os objetivos para a nova época e como vê a marcha atlética no mundo?

Pretendo fazer os mínimos da Olimpíada para os 50 km e acho que hoje a Marcha atlética está mais humana com a saída da maioria dos russos pelo uso de doping. Gosto da Marcha e da competição e de saber que tem muitos que amam o meu esporte preferido. No Brasil, estão começando a valorizar a Marcha pela forma como encaro a Marcha, com muita seriedade e profissionalismo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Jorge Salcedo – Entrevista (3)

Jorge Salcedo usando da palavra no congresso da IAAF em Beijing.
Foto: Lintao Zhang/Getty Images AsiaPac
5 - Qual a sua opinião sobre a evolução internacional da marcha nos últimos 20 anos, em especial a recente introdução da regra do chamado «pit lane»?

Falando apenas das Regras que gerem a marcha (o que creio era o objectivo da pergunta), eu diria que foram fundamentais as alterações que foram produzidas após o caso ocorrido nos Jogos Olímpicos de Sydney de 2000.

A reacção do COI foi (ao menos aparentemente) dura, muito por intervenção de um seu proeminente membro mexicano, com ameaças mais ou menos veladas de retirar a marcha do programa dos Jogos Olímpicos.

A IAAF decidiu nomear um grupo de trabalho que propusesse o que fazer para “responder” a algumas críticas que estavam a fazer à marcha, e que também permitisse manter a marcha nos Jogos. Por coincidência, o coordenador deste grupo era também mexicano, um bom amigo desde que ele foi DT nos Mundiais de Juniores de Lisboa, de seu nome César Moreno.

Fui convidado para integrar o grupo, muito provavelmente por ser o Presidente do Comité Técnico, e uma vez mais o digo, creio que o que foi apresentado terá resolvido o que era um problema. De qualquer modo, lembro-me bem como o COI fiscalizou a organização das provas de marcha dos Jogos de Atenas, mas parece que esta organização ficou satisfeita com as alterações introduzidas.

Não creio ser necessário relembrar o que foi introduzido nas Regras, quando estamos em presença de leitores amantes da marcha…., mas diria que houve duas alterações fundamentais. Pelo menos a primeira das Regras:

a) Um sistema muito mais eficaz de gestão e comunicação (muito particularmente aos atletas) dos cartões vermelhos (a designação era diferente à época);

b) O poder dado aos Juízes–Chefe para desclassificarem directamente um atleta nos últimos 100m (como foi generalizado há alguns anos), em caso de infracção clara das Regras relativas ao modo de progressão dos atletas. Esta desclassificação seria passível de apelo, e posteriormente, tornou-se obrigatória a presença de um Juiz Internacional de Marcha nos Júris de Apelo de competições em que se realizassem provas de marcha.

Esta segunda inovação (que por acaso foi mal aplicada, a primeira vez que, ao que sei, foi aplicada, saindo prejudicada a Susana Feitor) não teve a aprovação de todos da família da marcha, tendo alguns possivelmente entretanto mudado de opinião. Outros talvez ainda não.

Confesso que compreendendo, e até aceitando, a razão da necessidade desta intervenção do Juiz-chefe como alguém que possa desclassificar directamente um atleta, me parece que há uma certa ….timidez…(medo?) na aplicação desta Regra. Mas não sendo um Juiz de Marcha ….diplomado J ….talvez esteja errado.

Relativamente à nova Regra do “pit lane”….tenho de também confessar  que não fui ainda por ela (Regra) conquistado.

Não vejo razão para dar mais uma oportunidade a um atleta que tenha recebido um terceiro cartão vermelho, com o objectivo, ao que parece, de diminuir o número de desclassificações nas provas de marcha, tendo, como contrapartida, uma penalização que se expressa numa paragem durante um determinado período. E se calhar, também na “perturbação”, depois da paragem, no modo de progressão do atleta. Para além de obrigar a uma logística extra, associada à montagem e gestão da “zona de paragem” dos atletas com os 3 cartões vermelhos.

Mas pode ser que, “um dia destes”, mude de opinião.


6 - Que comentário lhe merece a alteração verificada recentemente na Associação Europeia de Atletismo no tocante ao enquadramento da marcha que deixou de ter uma comissão específica?

Devo iniciar a minha resposta a esta pergunta com a informação de que o Código de Ética da EA não me permite comentar decisões tomadas pela EA, estando eu de acordo, ou não, com elas. Muito particularmente se não estiver.

Posso, no entanto, partilhar convosco, porque é oficial, que foi decidido, por proposta do actual Presidente da EA, Svein Arne Hansen, para, como ele disse, se poder adaptar a organização da EA ao seu plano eleitoral de mudança, reestruturar as Comissões (algumas ex-Comités) existentes, mantendo-se as duas Estatutárias, apesar de com nomes diferentes (uma mais ligada as competições e a outra ao desenvolvimento), assim como a “Médica e Anti-Doping” e de “Atletas”, acrescentando-se outras duas, uma para lidar com temas do “Marketing e Negócios”, e outra denominada de “Comunicação Estratégica”.

Esta reestruturação implicou a descontinuação, como Comissão, de 6 anteriormente existentes, incluindo a de “Marcha”.

A ideia é de que os temas tratados pelas Comissões descontinuadas, o sejam por outros grupos. E eu diria, para começar, pelas Comissões agora existentes.

No entanto, está também prevista a formação de grupos de especialistas de determinadas áreas, que serão decididos pelas Comissões, e que reportarão a estas. Nisto, até é semelhante ao que acontecia antes. Com a diferença da designação do grupo, que nalguns casos pode passar de “comissão” a “grupo de especialistas”.

Será que a Marcha terá um grupo de especialistas que continue a tratar dos temas que lhe dizem respeito? Não o consigo garantir. A nova Comissão de “Eventos e Competições”, com novo coordenador, reunirá em fins de Setembro, e este (grupos de especialistas) é um tema da ordem de trabalhos! Saberemos então quais serão os grupos de especialistas que esta Comissão decidirá devam ser formados. Claro que relativamente à Marcha tenho a minha ideia, que defenderei durante esta reunião!

Jorge Salcedo foi reconduzido no cargo de presidente do Comité Técnico da Federação Internacional de Atletismo, numa equipa constituída por outros 17 elementos, a saber: Anna Palmerius (Suécia), Elena Orlova (Rússia), Krisztina Horvath (Hungria), Yukio Seki (Japão), David Katz (EUA), Tao Shui (China), Keith Davies (Grã-Bretanha), Pierre Delacour (França), Brian Roe (Austrália), Antonio Perez (Espanha), John Cronin (Irlanda), Luca Verrascina (Itália), Klaus Hartz (Alemanha), Garth Gayle (Jamaica) e David Weicker (Canadá). Não tendo havido candidatos de África e da América do Sul, foram incluídos, apresentados pelas respetivas estruturas, Aziz Daouda (Marrocos) e Julio Roberto Gomez (Colômbia).

A equipa do blogue "O Marchador" agradece a Jorge Salcedo a gentileza na concessão desta interessante e reflexiva entrevista, reafirmando os votos de felicidades e desejando um profícuo trabalho no desempenho das tarefas que o esperam!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Jorge Salcedo – Entrevista (2)

O japonês Yukio Seki, um assistente e Jorge Salcedo.
Foto: facebook de Y. Seki
3 – Jorge Salcedo, que vai continuar a liderar a formação na área dos Oficiais Técnicos Internacionais, refere-nos o que, nesta relevante matéria, foi feito no seu anterior mandato, concretamente no Projeto TOECS – Sistema de Educação e Certificação de Oficiais Técnicos.

Relativamente à nossa participação nas actividades do grupo de trabalho do TOECS, estivemos envolvidos, entre outras, nas seguintes:

- Exames de ITOs, nível IAAF.

- Primeiro Seminário de preparação e actualização de Delegados Técnicos de competições “de estádio”, Seminário co-organizado com a EA.

- Acção de actualização dos “Juízes Internacionais de Partida”, também realizada com a EA.

- Curso para prelectores de cursos do TOECS de nível II (nível Área).

- Actualização do “Guia Internacional de Partidas” e do “Guia dos Juízes Internacionais de Cronometragem Automática”.

- E, deste grupo, saiu uma ideia que classificaria como excelente, e que foi aprovada pelo Conselho da IAAF, que é a de produzir um só documento que integre as Regras de Competição (Capítulo V do Manual em vigor), e as notas explicativas específicas actualmente existentes no “Juiz Árbitro” (The Referee / Le Juge Arbitre), que “desapareceria” como documento independente.


4 - Jorge Salcedo, de 62 anos, juiz internacional desde 1984, é o Chefe dos Oficiais Técnicos Internacionais nos mundiais de Pequim (outro português, Samuel Lopes integrará a equipa), função que já desempenhou em diversas ocasiões.

Quais as novas ideias para os próximos quatro anos?

Relativamente a novas ideias para o futuro mandato, ou se quisermos, algumas que eu gostaria de implementar/finalizar realçaria:

- Alterar as definições “pista ao ar livre” e “pista coberta”, para “pistas de 400m “ e “pistas de 200m”, com as adaptações das Regras que se mostrem necessárias.

Mais cedo ou mais tarde (e já pensávamos que tal poderia acontecer com os Mundiais de Doha), teremos estádios cobertos com pistas de 400m, pelo que esta adaptação se mostra necessária. Como é bem sabido, já houve, há anos, uma alteração da Regra dos Recordes do Mundo, que implica que um recorde obtido em “pista coberta” possa, se igual ou melhor que um obtido “ao ar livre”, ser considerado como recorde absoluto. Como aconteceu, como mero exemplo, com a marca obtida por Renaul Lavillenie, em Donetsk, em 15.02.2014.

- Tentar completar o “Manual de Calibração”, que incluirá todos os parâmetros que devem ser cumpridos para que os equipamentos (lato sensu) utilizados em competições de Atletismo sejam certificados.

- Tentar influenciar os produtores de equipamentos utilizados (ou também utilizados) pelo Atletismo, para que se adequam, cada vez mais, às nossas necessidades (superfícies sintéticas para queda de lançamentos, VDM, gaiolas para lançamentos longos, etc.).

- Manter a colaboração técnica na formação, certificação e avaliação, quando em funções, de Oficiais internacionais, nas suas diversas vertentes.

-Relativamente às Regras de Competição, há aspectos “já em carteira” para estudo pelo Comité Técnico, como também há, ao menos um, que deverá entrar em fase de teste prático, para eventual passagem a Regra no futuro. Para não ficarem com “água na boca”, direi que a ideia a testar a ideia será a de ter, na última prova das Provas Combinadas, os atletas partindo com intervalos de tempo correspondentes às diferenças pontuais existentes na altura, terminando esta última prova pela ordem correspondente à classificação final na prova combinada.

Há já 7 anos, apresentei ao Conselho, em nome do Comité, um trabalho que tinha feito a este propósito, que foi aprovado pelo Conselho, mas a verdade é que o que tinha sido proposto para ser testado nunca o foi. Mas como houve agora um par de Federações que voltaram ao tema… Estou consciente que há muitos que não concordam com a ideia e/ou consideram-na de muito difícil concretização.

Para além de clarificações ou alterações em carteira (por exemplo algo que considero importante realizar, que é o indicar, claramente, o que é uma infracção técnica e uma disciplinar, já que há algumas que ….levantam dúvidas), deveremos estar sempre atentos ao que se vai “passando” no nosso Mundo, e que pode obrigar a alterações de Regras. Uma vez mais como (outro) mero exemplo, temos a alteração da Regra relativa à marcha, que obrigava uma prova a iniciar e a terminar com luz do dia, depois de se saber que era ideia dos organizadores dos Mundiais de Doha de realizar as provas de marcha (como as Maratonas), já de noite, para se serem evitadas as altas temperaturas diurnas.

Para terminar a loooonga resposta à questão (provavelmente demasiado explicativa quanto ao que tentámos fazer….), a conclusão poderá ser que estou satisfeito com o que, eventualmente, conseguimos.