Há momentos em que o destino de uma cidade pode mudar a partir de um acontecimento aparentemente simples.
Em Rio Maior, esse momento teve o rosto de uma jovem de apenas 15 anos.
Em 12 de agosto de 1990, na cidade búlgara de Plovdiv, Susana Feitor, atleta do Clube de Natação de Rio Maior, conquistava a medalha de ouro nos 5.000 metros marcha dos Campeonatos do Mundo de Juniores. Tinha apenas 15 anos e acabava de escrever uma das páginas mais importantes da história da marcha atlética portuguesa.
Aquela vitória não foi apenas uma conquista individual.
Foi uma inspiração.
Foi um sinal de que uma jovem de Rio Maior podia chegar ao topo do mundo e, sobretudo, de que o talento desportivo existente no concelho poderia ser transformado num projeto com dimensão nacional e internacional.
Foi neste contexto que surgiu uma visão que viria a marcar o futuro de Rio Maior: a visão de Silvino Sequeira, então presidente da Câmara Municipal.
Silvino Sequeira percebeu que o desporto podia ser muito mais do que competição. Podia ser uma estratégia de desenvolvimento, uma forma de afirmar a identidade de Rio Maior e uma oportunidade para projetar o concelho muito para além das suas fronteiras.
Ao lado desta visão política esteve o trabalho de Jorge Miguel, treinador e grande dinamizador da marcha em Rio Maior. A conjugação destas vontades — a visão de quem acreditava no potencial da cidade e a dedicação de quem trabalhava diariamente com os atletas — criou as condições para que uma ideia se transformasse numa realidade.
E essa realidade nasceu em 5 de outubro de 1991, com a primeira edição do Grande Prémio Internacional de Marcha Atlética de Rio Maior.
Assim, pode dizer-se que o Grande Prémio nasceu do encontro entre um talento excecional, uma visão estratégica e uma enorme paixão pelo desporto.
Susana Feitor foi a inspiração.
Jorge Miguel foi um dos grandes motores da ideia.
E Silvino Sequeira foi uma das figuras determinantes para perceber que aquela oportunidade podia transformar-se num projeto para a cidade.
A primeira edição foi muito mais do que uma competição.
Foi uma experiência nova para Rio Maior.
Atletas portugueses e estrangeiros chegaram à cidade, ocuparam as ruas, conviveram com a população e deram uma dimensão diferente a uma disciplina que, até então, não tinha encontrado em Portugal muitos palcos com aquela capacidade de mobilização.
A população saiu à rua.
Os atletas foram aplaudidos.
E Rio Maior começou a perceber que podia transformar uma prova de atletismo numa verdadeira imagem de marca.
A primeira edição contou com forte envolvimento da Câmara Municipal e com o apoio de várias empresas locais. A partir daí, o caminho estava aberto.
E logo nessa estreia, o cartaz desportivo dizia tudo.
Na prova feminina dos 5 quilómetros, a vitória pertenceu à finlandesa Sari Essayah, uma das grandes figuras internacionais da marcha e que, dois anos mais tarde, em 1993, conquistaria o título mundial dos 10 quilómetros marcha. A jovem Susana Feitor e então já uma referência da nova geração portuguesa, terminou na segunda posição, com 22:21, apenas 21 segundos atrás da vencedora. A terceira posição foi ocupada por Isilda Gonçalves.
Mas havia ainda mais história naquele primeiro dia.
Nos 10 quilómetros masculinos, triunfou José Urbano, do Sport Lisboa e Benfica, com 43:00, à frente de José Pinto e Carlos Graça. Urbano era, naquele tempo, uma das grandes referências da marcha portuguesa e detinha vários recordes nacionais, desde os 5.000 metros aos 20 quilómetros.
A prova cresceu, ganhou prestígio e foi conquistando, ao longo dos anos, um lugar de destaque nos grandes circuitos internacionais da modalidade. A 3 de abril de 2027, Rio Maior receberá a 34.ª edição do Grande Prémio Internacional de Marcha Atlética, numa história que atravessa mais de três décadas e que apenas conheceu uma interrupção: em 2021, a prova não se realizou devido à pandemia de COVID-19.
Passaram por Rio Maior campeões olímpicos, mundiais, europeus e outros grandes nomes da marcha.
Mas passaram também crianças e jovens que, ao verem os melhores do mundo tão perto, descobriram que o atletismo podia ser também o seu caminho.
Essa talvez seja uma das maiores heranças do Grande Prémio.
Não são apenas os grandes resultados que ficam.
Fica a inspiração.
E talvez seja essa a melhor definição do Grande Prémio de Marcha Atlética de Rio Maior:
Uma história que começou com uma campeã, ganhou forma através de uma visão e continua a caminhar pelas ruas de uma cidade que fez do desporto uma parte da sua identidade.

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