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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Birmingham e a salganhada da marcha atlética: como o atletismo está a autodestruir-se

Imagens: OA Sport e Lapresse. Montagem: O Marchador.

Com a devida vénia ao autor e a AO Sport, publica-se de seguida uma versão portuguesa da reflexão de Giulio Chinappi sobre os recentes Campeonatos da Europa de Atletismo de Birmingham, no que se refere sobretudo à marcha atlética, mas também a outros aspectos desse grande encontro bienal do atletismo europeu. O texto original (em italiano) foi publicado esta quinta-feira, 20 de Agosto, e pode ser consultado aqui:

Depois de ter eliminado as distâncias históricas e a identidade da marcha atlética, o atletismo europeu atingiu em Birmingham o seu ponto mais baixo: quatro provas simultâneas, dobragens, pontos de abastecimento congestionados e um espetáculo incompreensível. Ao mesmo tempo, na pista, regulamentos diferentes e privilégios baseados no «ranking» completam o quadro.

Há disciplinas que precisam de ser relançadas e outras que estão a ser destruídas de forma progressiva precisamente por aqueles que afirmam querer relançá-las. A marcha pertence à segunda categoria. Após anos de decisões questionáveis, mudanças de distâncias, supressão de tradições, tentativas de perseguir uma pretensa modernidade e contínuas experiências regulamentares, os Campeonatos Europeus de Birmingham ofereceram-nos o desfecho quase inevitável: uma enorme «salganhada» em que quatro provas são disputadas em simultâneo, homens e mulheres sobrepostos, «maratonistas» e especialistas na distância mais curta a cruzar-se, dobragens a multiplicar-se – e até acompanhar a luta pelas medalhas se torna um exercício para entendidos.

Era difícil imaginar melhor maneira de desvalorizar ainda mais uma modalidade já duramente afetada pelas decisões dos últimos anos. A marcha tinha a sua própria identidade, não precisava de pedi-la emprestada a ninguém. Os 20 km e, sobretudo, os lendários 50 km não eram simplesmente números: representavam décadas de história, campeões, recordes cronométricos, escolas nacionais, confrontos entre gerações. A prova de 50 km, em particular, era a mais exigente não só do atletismo mas provavelmente de todo o programa olímpico, uma prova extrema que exigia preparação específica, resistência física e mental, competência tática e uma gestão do esforço completamente diferente da das distâncias mais curtas.

No entanto, sem qualquer explicação racional, a World Athletics decidiu pôr-lhe fim. Primeiro surgiu a prova de 35 km, apresentada como solução moderna e mais adequada às novas necessidades (de quem?). Uma distância sem verdadeira tradição, introduzida em substituição de outra que tinha uma tradição enorme. Chegado o seu momento, a prova de 35 km mal teve tempo de existir antes de os mesmos dirigentes que a tinham imposto decidirem cancelá-la também. Para 2026 em diante, a marcha atlética internacional adoptou as distâncias de 21,0975 km e 42,195 km: meia-maratona e maratona de marcha.

As próprias designações já dizem muito sobre a confusão cultural que reina nas altas esferas do atletismo. A maratona, de facto, não é uma unidade de medida genérica equivalente a 42 quilómetros e 195 metros. É uma prova com a sua própria tradição, a sua própria mitologia, uma história cujas raízes se encontram primeiro na Grécia Antiga e depois nas origens dos Jogos Olímpicos modernos e que transformou essa distância aparentemente irracional, adoptada em Londres em 1908, num dos símbolos universais do desporto. O mesmo se aplica à meia-maratona, que se tornou, ao longo do tempo, uma especialidade autónoma da corrida de estrada. A marcha, por seu lado, tinha outras distâncias e outra história.

Chamar «maratona de marcha» a uma prova de 42,195 km significa confundir duas identidades diferentes, numa tentativa infantil de tornar a marcha mais reconhecível através do prestígio de outra disciplina. Com o objetivo declarado de promover uma modalidade, decide-se, portanto, apagar progressivamente as suas referências históricas, adoptando nomes e distâncias pertencentes a outra. O resultado não é uma maior compreensão, mas sim uma maior confusão. Durante décadas, bastava dizer «maratona» e todos sabiam de que prova se estava a falar. Bastava dizer «20 km» ou «50 km» e a referência era igualmente imediata. Hoje, é preciso distinguir entre maratona de corrida e maratona de marcha, entre meia-maratona e meia-maratona de marcha. Uma reforma que pretendia tornar a disciplina mais acessível ao público conseguiu a extraordinária proeza de tornar necessário um esclarecimento linguístico que antes não era necessário.

Birmingham levou ao extremo esta lógica de desvalorização da marcha atlética. As quatro provas de marcha, masculinas e femininas, nas duas distâncias, foram concentradas no mesmo momento e no mesmo circuito exíguo, com apenas um quilómetro de extensão. O resultado na transmissão televisiva foi desastroso: atletas que disputam provas diferentes cruzam-se continuamente; homens e mulheres das distâncias longa e curta percorrem os mesmos troços, mas pertencem a quatro classificações diferentes; as ultrapassagens tornam-se incessantes; uma ultrapassagem pode ser um ataque decisivo para uma medalha ou simplesmente a ultrapassagem de um atleta que está a disputar outra prova e se encontra numa fase diferente da sua própria prova.

O espectador, portanto, não pode confiar no que vê: tem de consultar constantemente os gráficos, o cronómetro, o número de voltas, a cor do dorsal e a distância. Se possível, deve ficar atento à cronometragem em direto «on-line» para perceber mais qualquer coisa. Por outras palavras, tem primeiro de decifrar a competição e só depois é que pode tentar acompanhá-la. Tinha-se dito que este formato aumentaria a visibilidade da marcha: na realidade, quatro provas simultâneas não geram quatro vezes mais atenção, mas sim uma fragmentação da atenção em que nenhuma das quatro competições recebe o espaço que mereceria.

Também do ponto de vista técnico surgem consequências que não deveriam existir numa prova de tão alto prestígio. Os próprios atletas, desde o momento em que foi anunciado o programa absurdo, alertaram para o risco de congestionamentos nos pontos de abastecimento: quando concorrentes de quatro provas diferentes chegam ao mesmo troço, têm de deslocar-se lateralmente, localizar o seu ponto de abastecimento, abrandar e retomar o ritmo. As trajetórias cruzam-se, os grupos sobrepõem-se, homens e mulheres de provas diferentes podem encontrar-se no mesmo espaço precisamente no momento em que a ação se torna menos linear. Um atleta pode, assim, ser perturbado não por um adversário direto, mas por alguém que está a disputar outra competição. É difícil imaginar uma demonstração mais evidente de como a lógica desportiva foi sacrificada em nome da compressão do programa.

A tudo isto acresce a impossibilidade da «dobradinha». No passado, um especialista capaz de destacar-se nas duas distâncias podia tentar conquistar duas medalhas, ou mesmo dois ouros, feito que, nas distâncias tradicionais, só foi alcançado pelo lendário polaco Robert Korzeniowski, nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. Hoje, com as provas a decorrerem em simultâneo, essa possibilidade é eliminada não por uma limitação técnica mas simplesmente por uma escolha de calendário, devido à qual um feito desportivo potencialmente memorável se torna materialmente impossível. Também neste caso, enquanto se proclama a vontade de criar novos motivos de interesse, elimina-se possíveis histórias para contar.

A marcha tornou-se assim o laboratório onde o atletismo internacional experimentou uma das suas piores tendências: alterar continuamente o que já funcionava, na convicção de que qualquer mudança equivale a modernização. A prova de 50 km era demasiado longa? Fora com a prova de 50 km! A prova de 35 km, recém-criada, não convence? Fora também com a prova de 35 km! A prova de 20 km tem uma história consolidada? Transformemo-la numa meia-maratona! As provas precisam de maior visibilidade? Realizemo-las todas em conjunto! Cada suposto problema é tratado criando um problema ainda pior.

Birmingham, no entanto, demonstra que a questão não se limita à marcha. Mesmo nas provas em pista, o público vê-se confrontado com uma proliferação de sistemas de qualificação diferentes que parece terem sido concebidos sem uma filosofia comum: nos 1500 metros e nos 3000 metros obstáculos, a qualificação é feita por classificação, sem repescagens por tempo; nos 800 metros, por outro lado, combina-se a classificação e os melhores tempos; nas provas de velocidade até aos 400 metros, surge, por sua vez, o controverso «bye» para os doze primeiros da tabela de qualificação. No que diz respeito a estas últimas provas, além disso, os doze privilegiados que acedem directamente às meias-finais não são necessariamente os doze atletas que tiverem registado os melhores tempos da época. Um atleta pode, portanto, ficar fora dos doze primeiros, mesmo estando em melhor forma, ou mesmo tendo obtido recentemente desempenhos cronométricos superiores aos de alguém que beneficie da isenção.

A distorção torna-se especialmente grave nos 400 metros, a chamada «volta da morte». Se, de facto, poupar uma eliminatória nos 100 metros significa evitar uma prova de poucos segundos, disputar menos 400 metros significa evitar um esforço de altíssima intensidade que pode deixar consequências importantes nas horas seguintes e no dia seguinte. Entre o 12.º e o 13.º atleta da classificação pode haver uma diferença mínima, mas um chega às meias-finais sem ter corrido a ronda anterior, enquanto o outro tem de enfrentá-la com mais 400 metros nas pernas. O atletismo era um dos desportos mais simples de compreender. Quem corre mais depressa ganha. Quem salta mais alto ou mais longe ganha. Quem lança mais longe ganha. Nas eliminatórias, os primeiros passam e, por vezes, os melhores tempos são repescados. Era precisamente esta simplicidade um dos seus mais importantes pontos fortes. Hoje, parece haver uma vontade quase sistemática de complicá-lo.

Birmingham representa o ponto culminante desta deriva, pois concentra no mesmo campeonato todos os defeitos acumulados nos últimos anos: o fim das tradições, designações artificiais, competições sobrepostas, privilégios baseados no «ranking», sistemas de qualificação diferentes e dificuldades crescentes para o público compreender o que está a acontecer. Mas, reiteramos, nenhuma disciplina foi tão maltratada como a marcha atlética.

A salganhada de Birmingham não é, portanto, um incidente organizacional isolado. É o resultado final de uma concepção segundo a qual a história do desporto é um obstáculo, as modalidades têm de ser continuamente reinventadas e o público pode ser conquistado multiplicando artifícios, em vez de se oferecer competições claras, reconhecíveis e respeitadoras da própria tradição. Quem hoje dirige o atletismo continua a falar de inovação, visibilidade e modernização, mas os resultados mostram o contrário: estas novas fórmulas não só não atraem novo público como acabam por desanimar até mesmo quem sempre acompanhou todas as provas dos campeonatos da Europa, dos mundiais e dos Jogos Olímpicos, mesmo quando disputadas a altas horas da noite.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A marcha, o único setor do atletismo sem provas nos Sub-18 da Final do Olímpico Jovem 2025

Imagens: FPA. Montagem: O Marchador

O Torneio Nacional Olímpico Jovem teve a sua primeira edição em 1983, então com a designação de Torneio Nacional DN Jovem, que juntou 4 Associações e no qual colocou todo o seu entusiasmo o saudoso Sequeira Andrade, jornalista daquele órgão centenário da comunicação social. No ano seguinte já eram oito e em 1985 o evento alargou-se a 18 Associações Regionais.

Em 1994, com a mudança de patrocinador (Comité Olímpico de Portugal), passou a ser designado por “Olímpico Jovem” com os escalões de Sub-16 e Sub-18 (no próximo fim de semana, em Viana do Castelo) a que se juntou, por alguns anos, o escalão de Sub-20 (1998 e 2000).

E foi em 1985 que a disciplina da marcha atlética passou a integrar o programa competitivo, tanto no setor masculino como no feminino, em paridade com todos os outros setores do atletismo, com notável êxito, quer sob o ponto de vista organizativo, quer no âmbito das políticas de marketing e que suscitaram nos jovens atletas uma plena adesão.

Nos primeiros 15 anos do Torneio foram figuras de grande destaque Susana Feitor, Sofia Avoila, Inês Henriques, Vera Santos e Ana Cabecinha, representando um enorme estímulo para as suas carreiras, vindo mesmo a conquistar títulos e medalhas em eventos europeus e mundiais de categorias jovens (Sub-20 e Sub-23) e seniores.

Ora, em 2015, os responsáveis federativos e a sua equipa técnica, entenderam que o setor da marcha, apesar dos continuados sucessos internacionais, não seria merecedor de integrar o programa do evento num dos seus escalões, e assim, num ano eram atletas Sub-16 prejudicados, noutro penalizados os atletas Sub-18, aqui, desde 2019, de modo consecutivo, sem representatividade.

Ainda se pensou que com a entrada na FPA de uma nova equipa diretiva e de uma nova estrutura técnica se poria fim a esta injustiça que impede, na prática, que sejam dadas aos marchadores as mesmas oportunidades de competir no Torneio Olímpico Jovem que aos colegas das restantes disciplinas da modalidade.

E de pouco serve invocar limites temporais na definição do programa competitivo, num evento que tem enormes repercussões no plano promocional da modalidade. Nem se desculpar com a justificação de igual tratamento em outras disciplinas sujeitas à mesma alternância de escalões (a marcha mantém-se no escalão Sub-16). Enquanto em outras disciplinas há sempre uma prova inserida no mesmo setor, solução que é impossível na marcha dado que quando se retira do programa uma prova desta disciplina, nenhuma outra fica que possa servir de alternativa – há apenas uma prova de marcha por escalão e por sexo no programa deste torneio.

É importante referir que é precisamente no escalão Sub-18 que se começa a definir a especialização dos jovens para cada uma das disciplinas, tendo em conta os resultados obtidos e as oportunidades concedidas.

E constituindo o Torneio Nacional Olímpico Jovem uma singular oportunidade e um momento alto do calendário federativo em cada época, principalmente para os escalões etários envolvidos, é incompreensível que não se termine com a injustiça de não se proporcionar aos marchadores Sub-18 as mesmas oportunidades de competir no evento que os seus colegas do mesmo escalão etário e das restantes disciplinas da modalidade ou representativas de cada setor.

Os efeitos desta nefasta medida, associados a outras medidas ou à sua ausência, pelo menos, na última década, já se fazem sentir na disciplina que, em 50 anos de existência no nosso país, atingiu nesta época os picos mais baixos de participação em campeonatos nacionais da disciplina e também, em termos de representatividade nacional, é a mais diminuta delegação de sempre aos Campeonatos Europeus de Seleções de Marcha (antes, Taça da Europa), que terão lugar neste domingo, em Podebrady, na Chéquia.

Até quando vamos continuar a assistir a esta nefasta medida que contribui objetivamente para o menor desenvolvimento da marcha atlética em Portugal?

terça-feira, 2 de maio de 2023

Marcha incluída no circuito de meetings?!

Imagens: FPA e iStock. Montagem: O Marchador

A Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) divulgou em meados de Abril, na página oficial da instituição na Internet, uma notícia afirmando no título que a marcha passaria a estar incluída no circuito nacional de meetings de atletismo («Marcha incluída no Circuito de Meetings»). Se fosse verdade, teria interesse. No entanto, o título induz em erro e o próprio texto explica porquê.

Segundo aquela nota informativa refere logo na abertura, «para dar oportunidade aos atletas de marcha atlética, que não têm provas na grelha já divulgada no Circuito de Meetings, a Federação Portuguesa de Atletismo resolveu contar as prestações dos atletas em provas específicas do setor do calendário de 2023». Portanto, logo o primeiro parágrafo do texto desmente o título, ao reconhecer que os atletas da marcha «não têm provas na grelha já divulgada no Circuito de Meetings». E poderia até ter dito de forma clara que não têm nem vão passar a ter, ao contrário do que parece sugerir o referido título. O mesmo é dizer que ainda não é desta que os meetings de atletismo organizados em Portugal vão voltar a ter a marcha atlética nos respetivos programas, ao contrário do que sucedeu no passado, mesmo que numa quantidade de casos que nunca chegou a ser muito grande.

O que a FPA afinal afirma pretender em relação à marcha no circuito de meetings é que os atletas da disciplina possam ser pontuados no âmbito do referido circuito – não através de provas de marcha dos meetings (que, como se viu, não existem nem vão passar a existir) mas pelas provas dos campeonatos nacionais, Campeonatos de Portugal, Taça de Portugal e Grande Prémio Internacional de Rio Maior. Portanto, será nas provas de marcha já existentes no calendário oficial da FPA que os atletas marchadores poderão pontuar para o circuito de meetings (e não nos torneios específicos deste circuito).

Na verdade, reconheça-se, esta solução tem um mérito: vai permitir aos marchadores terem benefícios (sobretudo económicos) em linha com os atletas das restantes disciplinas. Estes tinham (e continuam a ter) a oportunidade de obter prémios monetários em consequência das participações bem-sucedidas em meetings de atletismo – e os marchadores voltam a dispor também dessa oportunidade, recuperando uma condição perdida há cerca de vinte anos e vendo respeitada uma perspectiva de igualdade em relação aos especialistas das restantes disciplinas (pelo menos no que se refere à oportunidade de ganhar prémios). Mas acabam aí os benefícios, que, de resto, vão abranger uma quantidade escassa de atletas.

O problema é que não há efectiva integração da marcha no circuito de meetings: não passa a haver provas de marcha no programa de qualquer desses torneios; os marchadores não vão ter oportunidades para participar nesses torneios de atletismo; não vai passar a haver visibilidade da marcha atlética nessas ocasiões, sendo esta disciplina mantida pela FPA na penumbra do correspondente circuito (apesar do já referido título da notícia no «site» da federação). Se os homens e as mulheres da marcha atlética em Portugal quiserem dar a conhecer a sua disciplina olímpica através da expressão pública das competições, terão de continuar a contar unicamente com as provas do seu próprio calendário (já de si muito reduzido, quando comparado com a expressão que teve em anos passados).

Alargando a reflexão sobre este assunto, poderá dizer-se que, por esta via, qualquer dia a FPA passa a fazer os campeonatos de marcha todos no mesmo dia, já não sendo preciso incluir as provas nos campeonatos de atletismo de sub-18, sub-20, sub-23, absolutos, pista ao ar livre, pista coberta, etc... «Despachar» pode ser a palavra que resume a perspetiva da FPA em relação à marcha atlética.

A título de curiosidade e para eventuais interessados, aqui fica a lista das competições de marcha que a FPA elegeu para o lote das provas em que os marchadores poderão pontuar para o Circuito de Meetings:

Campeonatos Nacionais de Marcha (35 km e 20 km);
Campeonatos de Portugal de Pista Coberta (5000 m masc. e 3000 m fem.);
Taça de Portugal de Marcha (10 km absolutos);
Grande Prémio de Marcha de Rio Maior (20 km);
Campeonatos de Portugal, ar livre (10 mil metros).

O Circuito de Meetings da FPA compõem-se de 12 iniciativas, realizadas de 13 de Maio (Faro) a 7 de Agosto (Leiria), com palco em 10 ou 11 cidades.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

“Tacinha” de Portugal a más horas

Montagem: O Marchador.

Foi com irreprimível estupefacção que se tomou conhecimento do programa-horário da Taça de Portugal de Marcha, a realizar em Faro este sábado, 9 de abril. Segundo o documento, as provas têm início às 9h00 da manhã, com a partida simultânea das provas masculina e feminina de 10 mil metros marcha, seguindo-se, uma hora mais tarde, as partidas das provas de 5000 metros.

Para além das imposições regulamentares respeitantes à hora limite de confirmação de participação e à apresentação na câmara de chamada, teremos sempre de considerar o período de aquecimento prévio à partida, o que obriga os atletas a estarem no local da prova pelo menos meia hora antes da partida (e já será um aquecimento feito à pressa!). Portanto, os participantes na primeira prova da jornada deverão encontrar-se na zona da competição por volta das 8h30, o mais tardar.

Ora, atendendo a que esta Taça de Portugal de Marcha tem lugar num sábado (de manhã) e num dos extremos do país (neste caso, o extremo sul, em Faro), parece aberrante que se tenha adoptado esta solução de programa-horário. Não consta que os praticantes de marcha atlética em Portugal (e os respetivos clubes) tenham uma relação profissional com a prática do atletismo. Tendo os atletas, os treinadores, os dirigentes e os juízes os respetivos compromissos profissionais ou escolares, é natural que não tenham facilidade (antes pelo contrário!) de se instalar em Faro de véspera para aí pernoitarem e poderem comparecer no local da competição sem prejuízos de maior em matéria de sono.

O mais provável é que viajem diretamente das respetivas residências para o estádio. Ou seja, terão de levantar-se de madrugada para garantir tempo seguro de viagem para chegar ao destino sem atrasos. Os atletas que residam em Faro ou próximo (digamos até uma distância de uma hora de deslocação) não estarão muito mal, mas essa realidade abrange apenas os atletas do Algarve e da faixa sul do distrito de Beja. Os restantes atletas terão de deslocar-se de zonas mais afastadas.

Afigura-se, por isso, de grande dificuldade e evidente transtorno chegar a Faro quando se parte de distritos a norte de Beja ou das Regiões Autónomas, situação que se traduz em evidente desvantagem para todos quantos não estão perto de Faro.

Numa Taça de Portugal organizada pela Federação Portuguesa de Atletismo, é muito difícil compreender esta situação e mais difícil ainda aceitá-la, de tão evidente que é a discriminação que resulta deste critério organizativo. E pode perguntar-se: que ideia foi esta de fazer iniciar um programa de provas numa ponta do país às 9h00 da manhã de um sábado?

Obviamente não se terá querido beneficiar uns atletas e respetivos clubes em detrimento de outros – tal coisa seria inimaginável e de maneira nenhuma se põe tal questão. Então cabe perguntar se não seria possível desenvolver aquele programa de provas noutra hora do dia – à tarde desse mesmo sábado, por exemplo. Terá a FPA procurado alguma alternativa?

Será que estamos naquele contexto em que a FPA quer financiar os grandes projetos (grandes competições nacionais) procurando apoios, por exemplo, de câmaras municipais? Se for isso, estamos perante um modo de financiamento legítimo e bem-vindo, mas que dificilmente funcionará para uma competição como a Taça de Portugal de Marcha. É de admitir que muitas autarquias poderiam «comprar» um campeonato nacional de corta-mato. Ou mesmo uns campeonatos de Portugal, uns nacionais de juniores etc. Mas uma Taça de Portugal de Marcha não será muito «vendável» num processo desses.

Se calhar, é por isso que estas provas de marcha em Faro têm lugar num sábado às 9h00 da manhã, quando à tarde, no mesmo local, acontecem os Campeonatos de Portugal de 10000 metros + Torneio Ibérico. Se calhar a FPA conseguiu financiamento para este programa de corridas e não teve o mesmo sucesso para a marcha, acabando por relegá-la para um horário de sobras, que não é útil para os marchadores e não prestigia quem tomou esta decisão profundamente lamentável.

Podíamos até apostar que ninguém se atreveria a fazer com as provas da tarde (campeonatos de corridas) o que foi feito com as que acabaram atiradas para o princípio da manhã (campeonatos de marcha).

Houve algum esforço de conciliação entre os dois programas?

Em resumo: uma decisão aberrante, que constitui quase um convite a que os atletas e os clubes de fora do Algarve não participem na Taça de Portugal de Marcha!

domingo, 30 de janeiro de 2022

O ponto a que isto chegou!

Fotos: ADAL e FOTOS Oliveirinha. Montagem: O Marchador

Quando ressurgiu em Portugal, nos anos de 1974 e 1975 a marcha atlética viu desenvolver-se à sua volta um ambiente de festa, amizade e solidariedade, que não se comprometia mesmo nos momentos de disputa competitiva mais acesa. No final de cada torneio, campeonato ou grande prémio, os participantes juntavam-se em convívio (geralmente à volta da mesa) congregando num mesmo abraço, atletas, treinadores, dirigentes, juízes, autarcas, familiares e amigos.

Com o crescimento verificado e desejado para uma modalidade em ascensão, os intervenientes tiveram de definir modelos de desenvolvimento, opções estratégicas, planos de actividade, tanto vertente do clube como na da associação ou ainda da autarquia e, mais tarde no âmbito federado. Para cada caso foi adoptada uma solução, nem sempre coincidente com a opção do vizinho, por vezes com registo mesmo divergente das linhas adoptadas por outras entidades congéneres. No entanto, a diferença de opiniões e de acções não dava origem a conflitos, apenas a diferentes escolhas traduzindo modos também distintos de ver os problemas.

Se uns consideravam prioritário avanços na formação de treinadores, outros preferiam formar juízes; se uns queriam sensibilizar dirigentes, outros procuravam mobilizar as autarquias; se uns apostavam na internacionalização das suas realizações, outros contentavam-se com a dimensão local dos eventos que promoviam – mas todos, cada um a sua maneira e com os recursos de que dispunha, visavam o crescimento e o desenvolvimento da marcha. Qualquer discordância que surgisse, fosse de interpretação técnico-regulamentar fosse de estratégia directiva, ficava no plano do confronto de ideias, aí nascia, se desenvolvia e, por fim morria.

Alguns casos recentes dão ideia que esta realidade pode estar em perigo por intervenção de agentes pouco identificados com os princípios e os valores que têm marcado a marcha atlética em Portugal nas ultimas décadas. Situações em que se chega a confronto físico ou em que sistematicamente se perseguem juízes, responsabilizando-os pelo insucesso de tal ou tal atleta (ao ponto de se chegar à ameaça e ao insulto) são sintoma de que há quem esteja a mais no mundo do desporto e em particular da marcha atlética. Está a mais quem pratica actos como esses; está a mais quem, podendo, não intervém para pôr cobro a este tipo de situações; está a mais quem anda de braço dado com agentes que não reflectem (antes desrespeitam) um património de valores que tornaram a marcha atlética numa modalidade ou disciplina atlética de referencia em Portugal, tanto pela qualidade dos resultados desportivos que foi alcançando de forma crescente como pelo exemplo de dirigentes, atletas, treinadores, juízes e familiares de dedicação e empenho ético no desenvolvimento da última especialidade do atletismo a afirmar-se no plano nacional.

Havia alguma necessidade de chegar a este ponto? Falta assumir responsabilidades e pôr à margem quem está a mais.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Marcha atlética ausente do escalão de Iniciados do Olímpico Jovem

Criado em 1983 com a designação de Torneio Nacional DN Jovem, uma iniciativa da Federação Portuguesa de Atletismo, que teve a parceria do “Diário de Notícias”, o Torneio Nacional Olímpico Jovem, é um momento alto do calendário da FPA em cada época, com natural relevo para os escalões de iniciados e juvenis.

Infelizmente, para a disciplina da marcha atlética, a partir de 2001 e sempre em anos ímpares, o escalão de iniciados não tem sido contemplado com provas de marcha (e o mesmo acontece atualmente para o escalão de juvenis nos anos pares), numa medida altamente penalizadora para o setor que vê assim negada a possibilidade de recrutamento de valores nas escolas e clubes do país. Discriminatória, não protege o atletismo total frustrando, na prática, a expetativa do surgimento de jovens talentos.

Talentos que o Torneio Nacional Olímpico Jovem deu a descobrir no passado catapultando-os para a projeção internacional. Este ano, a marcha atlética apenas é contemplada no escalão de Juvenis, que vão ter ainda os seus campeonatos nacionais neste mês de junho. A FPA considera que dos participantes na fase final do Olímpico Jovem sairão os campeões do futuro.

No que à especialidade da marcha atlética diz respeito, foi precisamente na prova de Iniciados que se destacaram algumas das figuras de maior relevo no atletismo nacional. Susana Feitor, vencedora em 1989 e 1990, sagrou-se campeã mundial de juniores em 1990 e foi medalha de bronze nos mundiais de Helsínquia em 2005. Sofia Avoila, que ganhou em 1991, foi campeã europeia de juniores em 1995. Inês Henriques, vitoriosa em 1994 e 1995, estabeleceu este ano a melhor marca de todos os tempos na prova dos 50 km marcha. Vera Santos, que venceu a edição de 1996, foi medalha de prata na Taça do Mundo de 2010, medalha de bronze na edição de 2008 e quarta nos mundiais de 2009. Ana Cabecinha, que ganhou em 1999, foi medalha de bronze nos europeus de juniores de 2005, classificou-se em 8.º lugar nos Jogos Olímpicos de 2008, 2012 e 2016, foi quarta nos mundiais de 2015 e conquistou a medalha de prata na recente Taça da Europa de Marcha em Podebrady.

Ainda no escalão de iniciados, Santarém é o distrito do país que alcançou o maior número de vitórias, no total de 12 (9 femininos e 3 masculinos), seguida do Algarve (6 títulos), Porto (5), Setúbal (5), Leiria (3), Viana do Castelo (1) e Madeira (1).

Não se compreende que não se ponha termo a esta injustiça e, por essa via, não se proporcione aos marchadores as mesmas oportunidades de competir no Torneio Olímpico Jovem que aos colegas das restantes disciplinas da modalidade.

E de nada serve dizer que há outras especialidades sujeitas à mesma alternância de escalões. É que nas demais disciplinas sempre pode haver a possibilidade de não participar numa prova mas participar noutra do mesmo «grupo disciplinar», solução impossível na marcha, dado que quando se retira do programa uma prova desta disciplina, nenhuma outra fica que possa servir de alternativa – há apenas uma prova de marcha por escalão e por sexo no programa deste torneio.

Nos últimos anos têm sido vários os apelos às estruturas diretiva e técnica da FPA no sentido de se corrigir esta anormalidade sem que, até ao momento, uma justificação sequer tenha sido fornecida. E não há dúvida que a situação é nefasta para o desenvolvimento da especialidade em Portugal. Requintadamente nefasta.

A Final Nacional do Torneio Olímpico Jovem deste ano vai ter lugar na cidade de Braga, nos dias 3 e 4 deste mês, competição destinada a 20 Seleções Distritais e Regionais, com as provas de marcha, de 5.000 metros (escalão de juvenis) a realizarem-se neste sábado, pelas 18:30 horas, com a introdução do sistema de “Pit Lane”.  Os recordes do Torneio estão na posse de Ricardo Vendeira (Setúbal), com 21.17,05 (1998), e de Ana Cabecinha (Algarve), com 24.59,62 (2001). Coletivamente, na edição de 2016, a Seleção de Lisboa venceu pelo terceiro ano consecutivo, seguida de Setúbal, Porto, Santarém e Leiria.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

50 km marcha (fem.) no Mundial: sim ou não?

Um artigo da «Revista Atletismo»
por Arons de Carvalho (2017-01-17)

Inês Henriques acaba de estabelecer o recorde mundial feminino de 50 km marcha, com uma excelente marca: 4h 08m 26s. Fez muito melhor que o tempo mínimo que a IAAF estabelecia para reconhecer o recorde: 4 h 30m. E fez melhor que o oficioso recorde da sueca Monica Svensson, que conseguira 4.10.59 em 2007, a melhor marca conhecida.

A IAAF oficializou assim a única prova que ainda não era comum aos homens e mulheres. Em ano de Mundial (em Londres), colocava-se o problema: para quando a introdução da prova nas grandes competições, nomeadamente Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos? Vejamos como foi com as últimas provas introduzidas no setor feminino, apontando os anos de homologação do primeiro recorde mundial (RM) e a estreia em Campeonatos do Mundo (CM) e Jogos Olímpicos (JO):

                             RM             CM          JO
Triplo                   1990           1993        1996
Vara                     1992           1999        2000
Martelo                1994           1999        2000
3000 ob.               2000           2005       2008

Verifica-se assim que entre a oficialização do recorde mundial e a estreia em Mundiais mediaram entre três anos (triplo) e sete anos (vara), só sendo admitidas as novas provas quando estas já estavam devidamente sedimentadas.

Daí que, independentemente do natural desejo português de aproveitar esta oportunidade para Inês Henriques voltar a brilhar, teremos que reconhecer que não faz sentido introduzir já a prova no Mundial deste ano. Na Taça do Mundo do ano passado, foi permitida a participação feminina na prova masculina e só apareceu uma norte-americana, que foi ultimíssima, com mais de quatro horas e meia. No entanto, a IAAF resolveu, em relação ao Mundial de Londres, voltar a permitir a participação de atletas femininas na prova masculina, desde que satisfizessem a marca mínima (demasiado acessível para os homens, muitíssimo – e anacronicamente – exigente para as mulheres) de 4h 06m.

Uma medida que acaba por não ser nem carne nem peixe…

Ligação para o artigo, aqui.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Estabelecer e... bater recordes

Quem acompanha a actividade da marcha atlética em Portugal terá notado que o calendário nacional da época em curso volta a incluir uns campeonatos nacionais de 50 km. Esse é um facto assinalável e muito bem-vindo. Na primeira versão do calendário apontava-se para campeonatos de 35 km, sem se saber se eram para masculinos, femininos ou ambos. Depois estabeleceu-se que seria para masculinos e femininos, juntando-se entretanto a alternativa de 50 km para ambos os sexos.

É aqui que surge a estranheza. Nas últimas duas épocas, a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) entendeu inusitadamente que a quantidade de interessados não justificava a realização de campeonatos na distância olímpica superior. Foram fracas as justificações invocadas, mas sobre esse assunto já aqui se disse o suficiente, não valerá a pena aprofundá-lo agora. A questão é: o que terá levado a federação a retomar como por artes mágicas os campeonatos de 50 km marcha?

Para contextualizar, lembremos que, após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a atleta Inês Henriques, falando sobre o seu futuro desportivo, manifestou o desejo de ser mãe e de tornar-se a primeira mulher portuguesa a fazer os 50 km. O primeiro desses objectivos é do foro estritamente pessoal; o segundo quadra bem com a tendência estimulada pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (AIFA) para envolver também o sector feminino nas competições oficiais de 50 km marcha.

Com o passar do tempo e após a AIFA ter anunciado que iria reconhecer um primeiro recorde mundial feminino de 50 km marcha, começaram a circular informações segundo as quais Inês Henriques tencionaria tentar a honra de ser a primeira recordista mundial da distância. Louvável objectivo, esse, que muito glorificaria a atleta e honraria a marcha atlética portuguesa.

Só que, ao mesmo tempo, a FPA anuncia, sem qualquer explicação, que afinal haverá campeonatos nacionais de 50 km marcha, destinados a masculinos e a femininos.

Conhecendo-se a realidade da marcha em Portugal, detecta-se de imediato a contradição federativa: se em 2015 e 2016 não pôde haver campeonatos nacionais masculinos de 50 km por alegadamente não haver quantidade de interessados que justificasse a prova, por que razão decide a FPA levar a efeito pela primeira vez um campeonato feminino em que não se previa (nem se confirmou) haver mais do que uma interessada?

Já se sabia que a argumentação da FPA era tosca para justificar a eliminação dos 50 km dos nacionais de marcha em estrada dos últimos anos. O que ninguém imaginava era que bastaria a ambição (legítima e louvável, entenda-se) de uma atleta para fazer reverter os argumentos da federação tendentes a interromper a história dos campeonatos nacionais de 50 km marcha ao fim de praticamente 30 anos.

A edição de 2017 dos nacionais de 50 km marcha (masculinos e femininos) tem lugar este domingo em Porto de Mós. Neles, Inês Henriques vai tentar obter marca capaz de permitir-lhe vir a ser reconhecida pela AIFA como primeira recordista mundial feminina de 50 km marcha. Oxalá venha a ter sucesso, já que a atleta merece a honra que procura!

E, já agora, fazemos votos de que, caso venha a ser reconhecida como primeira recordista mundial da distância, estabeleça desde já para 2018 o objectivo de bater esse recorde. Pelos vistos, é o único critério para haver em Portugal campeonatos nacionais de 50 km marcha. Masculinos e femininos.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Experiência Olímpica

José Dias, Jorge Salcedo, Samuel Lopes, Luís Figueiredo e Nilton Ferst.
Foto: Fernando Hollanda Junior. Montagem: O Marchador
Por Nilton Cesar Ferst

Foi sem dúvida uma das experiências mais marcantes em minha carreira como árbitro. Os XXXI Jogos Olímpicos realizados em meu país e trabalhando junto com uma equipe de árbitros nacionais e oficiais técnicos internacionais da mais alta competência. A completar 30 anos como árbitro em 2017 e desde 2000 como Oficial Técnico Internacional (NII na Marcha e em Pista/Campo), ser convocado pela IAAF para atuar na Marcha Atlética como Assistente ao Árbitro Chefe, na companhia de outros grandes árbitros internacionais de marcha, foi um prêmio, foi o reconhecimento por todos esses anos na pista.

Foram dias cansativos para todos, mas de muita troca de experiência. Seriam muitos nomes a citar, a fazer referência, a agradecer, mas vou mencionar alguns, que tive o privilégio de trabalhar junto. Em comum entre todos, a língua natal, o português. Destes, quatro portugueses e um brasileiro.

José Júlio Dias (Portugal), Árbitro Internacional de Marcha Atlética de grande experiência que conheci em 2006, e desde então temos sempre conversado sobre a Marcha;

Jorge Salcedo (Portugal), nomeado para os Jogos como Delegado Técnico, que é o presidente do Comité Técnico da IAAF e ainda membro do Conselho da Associação Europeia, profundo conhecedor das Regras técnicas do Atletismo, que com sua experiência nos transmite segurança e confiança;

Samuel Silva Lopes (Portugal), nomeado como Oficial Técnico Internacional, que atuou, junto comigo, como Árbitro de Vídeo. Foram vários momentos durante os jogos que tivemos, juntos aos representantes dos países e ao Júri de Apelação, que demonstrou conhecimento das regras técnicas com auxílio da tecnologia;

Luís Figueiredo (Portugal), nomeado como Árbitro Internacional de Partida, que nos momentos que o vi atuando, somente pelas imagens de vídeos, demonstrou seriedade e experiência na função que estava.

Acredito que o conhecimento deve ser compartilhado e não guardado. E isso aconteceu em português.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O perfume da Marcha Atlética (*)

Ana Cabecinha após concluir a prova no Rio de Janeiro. Foto: COP
Por João Sequeira Andrade

“Desde a vitória de Susana Feitor nos Mundiais de juniores, em Plovdiv, na Bulgária,  que os marchistas portugueses sempre deram um ar da sua graça. Êxitos internacionais aqui e ali, e em geral boa presença em grandes competições.

Agora, no Rio, distinguiu-se Ana Cabecinha, que com dignidade e classe briosamente se envolveu na luta pelos primeiros lugares da prova olímpica de 20.000m.

A tradição da Marcha é relativamente recente em Portugal, se bem que nos anos 30 do século passado a especialidade tivesse sido cultivada rara e rusticamente em Lisboa.

Esta especialidade atlética recebeu há um bom par de anos o primeiro impulso sério, devido ao espírito de iniciativa de Aires Denis. Este primeiro apóstolo da marcha atlética arregimentou um valioso núcleo de interessados, entre os quais os irmãos José e Luís Dias, passados de marchadores a técnicos da especialidade. A primeira “vedeta” nacional foi José Pinto, que durante a sua longa carreira não parou de ser campeão.

Na senda de José Pinto despontou uma série de valores como José Urbano, Augusto Cardoso, José Magalhães, Sofia Avoila e, entre outras, Susana Feitor, que chegou a recordista europeia júnior e foi constante frequentadora de competições continentais, mundiais e olímpicas.

O obreiro mor da Marcha nacional é um senhor chamado Jorge Miguel. Ao longo de anos e anos, do seu “laboratório” de Rio Maior continuam a sair várias das melhores prendas nacionais da especialidade.

Nas grandes competições internacionais há sempre um perfume a Marcha portuguesa.”

(*) O texto que, com a devida vénia, acima transcrevemos, inserido na 139.ª crónica, intitulada “Carta ao Pancrácio”, é da autoria de João Sequeira Andrade, jornalista do Diário de Notícias (aposentado), tendo ainda sido colaborador de diferentes jornais. Integrou os Órgãos Sociais da Federação Portuguesa de Atletismo. Estudioso da modalidade, é autor de publicações, entre as quais “Os Recordes Nacionais do Atletismo e outras histórias”, das Edições Portugal.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Uma lança africana na marcha dos mundiais de juniores

Yehualeye Beletew, a comandar a prova nos mundiais
de Bydgoszcz. Foto: Getty Images
A jovem etíope Yehualeye Beletew constituiu a grande surpresa da prova feminina dos 10.000 metros marcha dos campeonatos mundiais de juniores, evento que teve este domingo a última jornada na cidade polaca de Bydgoszcz, ao conquistar a medalha de bronze. Por sua vez, na penúltima jornada dos campeonatos, coube a vez a Yohanis Algaw alcançar o quarto lugar na competição masculina, na mesma distância.

Beletew, de 17 anos de idade (1.º ano no escalão de Sub-20), obteve o tempo de 45.33,69, novo recorde de África no escalão, sendo a primeira vez que um atleta africano da especialidade da marcha atlética (masculinos ou femininos) alcança um lugar de pódio nuns mundiais de juniores.

Nos campeonatos africanos absolutos, que tiveram lugar em junho deste ano, em Durban, na África do Sul, a atleta etíope já dera um sinal inequívoco da sua classe ao sagrar-se vice-campeã com a expressiva marca (atendendo à idade) de 1.31.51 (recorde africano de juniores). Conquistou, deste modo, o direito a ser uma das duas especialistas de marcha (a outra é Askale Tiksa) a merecer um lugar na seleção da Etiópia para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que, com exceção das referidas marchadoras, é formada apenas por corredores meio-fundistas e fundistas.

Há exatamente um ano, em Cali (Colômbia), nos mundiais de Sub-18, a sua compatriota Ayalnesh Dejene, com a mesma idade, garantia a medalha de bronze na prova dos 5.000 metros, competição em que Beletew também participou e onde foi apenas 19.ª

Quanto a Algaw, fará 17 anos no próximo mês de agosto, sendo, por isso, atleta ainda do escalão Sub-18. O quarto lugar nestes mundiais de juniores na Polónia também lhe rendeu o recorde africano de juniores.

Nos mundiais de sub-18 de Cali, em 2015, ainda no primeiro ano do escalão, tinha sido 15.º classificado, com 46.14,27, marca que lhe permitiu ser o melhor africano na prova. Já nos referidos campeonatos africanos do mês passado, competindo em escalão absoluto, Yohanis Algaw foi 10.º classificado nos 20 km masculinos, com 1.27.50, terminando adiante de figuras conceituadas da marcha africana, como Jérôme Caprice (Maurícia) e Marc Mundell (África do Sul).

Se alguém pensava que a proeza de Beletew em 2015 tinha sido obra do acaso, aí tivemos em Bydgoszcz a confirmação da ascensão da marcha africana, presentemente nos escalões jovens, mas que, num futuro que se antevê não muito distante, poderá ombrear com os melhores do mundo nos escalões seniores, afinando a vertente técnica, eventualmente, com a contribuição de treinadores europeus. Veja-se o que se passa na China, mas, claro, aqui com outras potencialidades económicas e com o colossal salto qualitativo desde que Sandro Damilano passou a orientar os seus melhores atletas...

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Da analogia ao escândalo: os 50 km marcha em Portugal

A reflexão que se segue parte de uma realidade político-económica nacional para chegar a um caso que a marcha atlética vive actualmente em Portugal.

No que diz respeito à organização da sociedade, o espectro político português divide-se quanto ao papel que o Estado deve desempenhar na economia. Para uns, o Estado deve limitar-se ao papel de regulador da iniciativa privada; para outros, o Estado deve ter um papel central, assumindo o controlo dos sectores mais importantes da economia.

Estes últimos têm, nos últimos anos, argumentado que o sector económico do Estado tem sido objecto de enfraquecimento premeditado, para que os defensores do predomínio empresarial possam afirmar que o Estado é incapaz de gerir as suas empresas, justificando-se por isso a sua privatização. Segundo esses, fica, assim, aberto caminho à transferência para a exploração privada de grande parte do que tem sido de propriedade pública. Não cabe no espaço do blogue «O Marchador» o aprofundamento da reflexão sobre o tema da propriedade e da exploração dos meios económicos, mas esta formulação sugere uma analogia com o que nos últimos tempos tem ocorrido com a questão dos 50 km marcha e com a discussão à volta da manutenção ou da extinção dos respectivos campeonatos nacionais.

A Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) decidiu em 2014 que iriam acabar os campeonatos nacionais da distância mais longa do programa olímpico do atletismo (50 km marcha), não os contemplando no calendário de 2015. Logo a decisão teve resposta dos marchadores: atletas (no activo ou não), treinadores, dirigentes, juízes, familiares, amigos – todos a uma só voz fizeram ver a irrazoabilidade da decisão da FPA, que não teve alternativa e tratou de voltar atrás, repondo no calendário um evento que para lá entrou há 30 anos.

Mas, ao decidir manter o campeonato nacional de 50 km marcha, a federação não diligenciou no sentido de promover a prova, optando por escondê-la (isto é, não a publicitando), parecendo empenhada em garantir que não tivesse sucesso. Acabaria por ter à partida seis concorrentes, quatro dos quais não a concluíram. Foi quanto bastou para que se reforçasse aquilo que alguns, pouco ou nada empenhados no desenvolvimento da marcha atlética no país, afirmam ser a falta de interesse ou de qualidade para que se mantenham os campeonatos nacionais dos 50 km.

Neste processo terá tido papel de relevo (ou pelo menos responsabilidade inegável, fosse pela acção ou pela omissão) o treinador nacional de marcha, a única pessoa da estrutura federativa com responsabilidades específicas sobre esta disciplina olímpica do atletismo. Tem sido um dos defensores da ideia de que os campeonatos de 50 km são muito exigentes do ponto de vista organizativo (curiosa questão, que parece remeter mais para a preguiça do que para o verdadeiro empenho na missão), pelo que devem deixar de existir por escassez de interessados e falta de qualidade dos resultados.

Segundo constou nos últimos meses e não parece negado (antes pelo contrário, cada vez se confirma mais), o clube criado pelo treinador nacional de marcha vai agora organizar uma prova de 50 km. Não consta que vá candidatá-la a campeonato nacional, assim como não se sabe quando ou onde vá ter lugar. Mas há ecos de que a ideia é mesmo ir em frente.

Aqui chegados e perante a estranheza que já se instala no sector em relação a esta questão, cabe fazer algumas perguntas, para as quais seria interessante ter resposta.

Como compreender que o treinador nacional de marcha tenha sido um dos defensores da extinção dos campeonatos nacionais de 50 km marcha quando o seu papel deveria ser o de fortalecer a disciplina?

Por que razão o treinador nacional de marcha aparece agora ligado à criação de uma prova de uma distância cujos especialistas ignorou durante os anos que já leva no cargo federativo?

Com que objectivo avança para a realização de uma prova de 50 km organizada pelo clube que fundou enquanto treinador nacional de marcha, depois de nada ter feito para defender o campeonato nacional da distância, como seria seu dever?

Como compreender que uma prova de 50 km seja de difícil organização enquanto campeonato federativo mas já não o seja enquanto prova particular?

Quais os interesses por trás desta opção?

O que vai a direcção da FPA fazer em relação a este assunto, que assume traços de escândalo como nunca antes sucedeu na marcha atlética em Portugal?

É aqui que entra a tal analogia com a realidade político-económica: destrói-se um bem comum para lhe dar depois um benefício particular.

A única coisa que se espera e deseja é que a FPA tenha mão nesta miséria.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Espanha serve de inspiração na marcha jovem

Laura García-Caro, uma das imagens
do sucesso espanhol na marcha jovem.
Foto: RFEA
A recente realização dos Campeonatos de Espanha de Atletismo (Castellón, 1 e 2 de Agosto) e do Campeonato de Espanha de Federações Autonómicas (Gijón, 25 de Julho) veio confirmar um dado muito significativo do atletismo do país vizinho: o grande desenvolvimento da marcha atlética nas camadas jovens, factor decisivo para a manutenção futura da Espanha entre a elite mundial da especialidade.

Ao apreciar com detalhe as folhas de classificação das provas de marcha dos referidos campeonatos, nota-se grande preponderância de atletas jovens com elevada qualidade, resultado de uma extracção também de uma grande quantidade de praticantes. O campeonato entre federações autonómicas totaliza 29 atletas classificados (16 masculinos e 13 femininos), sendo 20 deles de nascimento em 1990 ou posterior. Trata-se portanto de atletas com idades até 25 anos, incluindo quatro juniores.

Em complemento a esta nota acrescente-se que os seis primeiros masculinos e cinco das seis primeiras femininas eram atletas nascidas em 1990 ou depois, facto demonstrativo do valor dos melhores jovens marchadores.

Os campeonatos absolutos revelaram situação parecida. Num universo igual de 29 atletas classificados (17 masculinos e 12 femininos), 14 estão no referido quadro etário (até 25 anos). No caso destes campeonatos, um dos mais jovens participantes, Álvaro Martín, nascido em 1994, acedeu ao pódio da prova masculina, suplantado apenas pelo consagrado campeão europeu Miguel Ángel López e pelo experiente internacional Benjamín Sánchez.

Esta breve recolha de dados, mesmo sem profundidade analítica, não deixa de permitir o estabelecimento de uma relação com os resultados obtidos também recentemente pelos jovens espanhóis nas provas de marcha dos europeus de juniores (Eskilstuna, Suécia, 16 e 18 de Julho) e nos europeus de sub-23 (Tallinn, Estónia, 10 de Julho). Na competição disputada na cidade sueca, a Espanha levou para casa duas medalhas na prova masculina (1.º, Diego García; 3.º, Pablo Oliva; além do 11.º, Manuel Bermúdez), tendo o quarto, o sétimo e o 21.º lugares na prova feminina, cujo pódio foi preenchido pelas três russas em pista.

Na competição realizada na capital estónia, Álvaro Martín foi segundo nos masculinos e Laura García-Caro foi quarta nos femininos. Houve ainda espaço para o quinto lugar de Francisco Durán, o nono de Amanda Cano e o 11.º de Mar Juárez.

Portanto, é fácil descortinar aqui uma densidade invulgar de qualidade, atletas cujo valor não se perde numa escassez de nomes pronta a desaparecer do mapa à primeira esquina da carreira desportiva. Não, pelo contrário, estes resultados comprovam a valia o trabalho que está a ser desenvolvido em Espanha tanto pelos clubes como pelas federações (nacional e autonómicas) no domínio da formação de jovens marchadores.

Ou seja, não é preciso ir longe para recolher bons exemplos.

sábado, 29 de novembro de 2014

Maratona de Lisboa... a marchar

António Gonçalves e a sua maratona ... a marchar.
Foto: fb GDS Domingos. Montagem: O Marchador
Do nosso amigo António Gonçalves, treinador do Grupo de Amigos de Casais do Vento, recebemos o texto que, com gosto, se publica de seguida, descrevendo a participação como marchador na recente Rock'n'Roll Maratona de Lisboa.

Quando, no ano passado, na Meia-maratona e Rock'n'Roll Maratona, estava à espera de um atleta amigo, vi chegar um atleta da maratona não a correr mas a marchar. Não o conhecia, hoje sei que não era português, mas logo pensei: boa ideia! Porque não fazer a maratona a marchar?

Como sempre fui de "ou tudo ou nada" e como o meu amigo e atleta veterano do GACV Paulo Pontes queria fazer a sua primeira maratona, logo lhe disse: tu vais a correr e eu a marchar. E assim foi. Este ano lá estávamos nós na partida em Cascais.

Os meus treinos basearam-se em fazer quilómetros em estrada com subidas, vários tipos de percursos, reforço muscular e alongamentos, nada de treinos específicos.

Tinha com objectivo fazer 4.45 h, ia bem, sem me esforçar, pois o que importava era chegar ao fim e estar bem.

Acabei por fazer 5.00.19 h, pois o percurso não é muito favorável para marcha: tem zonas irregulares, com muita calçada, o que dificulta o andamento.

Durante o percurso tive oportunidade para breves conversas com atletas e falar-lhes sobre marcha. Penso que não convenci ninguém, mas alguns até mostraram curiosidade. Vamos ver se para o ano temos mais atletas a marchar na Rock'n Roll Maratona de Lisboa...

Já me ia esquecendo: é que em Caxias encontrei como espectador um grande marchador. Foi um grande cumprimento, como calculam. Um abraço, Pedro Isidro!

Por aqui me fico. Passem a palavra. Vamos lá, veteranos, toca a marchar, pois marchar é fixe.