domingo, 8 de fevereiro de 2026

Albert Galín, uma referência da marcha atlética espanhola

O interessante livro de memórias de Albert Galín, que esteve num
seminário  de marcha em Portugal, com César Gómez, em 1981.
Imagens: Albert Galín e arquivo de O Marchador.
Montagem: O Marchador

Quando Adrià Galín Pons, recentemente nomeado Juiz Internacional de Marcha do Painel Silver da World Athletics, nos fez chegar em mãos um livro da autoria do seu pai — Albert Galín Calvo, “Memórias – 60 anos de atletismo” — acompanhado de uma mensagem de cumprimentos, foi inevitável recordarmos uma figura que deu um contributo marcante para o desenvolvimento da marcha atlética no nosso país.

A marcha atlética em Portugal foi reintroduzida em finais de 1974, tendo a primeira participação portuguesa num evento internacional ocorrido na prova “Barcelona–Madrid–Lisboa–Genebra”, em 1978, na pista do Estádio Municipal de Atletismo Joan Serrahima. Em 1981 concretizavam-se, finalmente, os anseios dos entusiastas da disciplina em aprofundar os conhecimentos teóricos e técnicos, recorrendo à experiência e ao saber de conceituados especialistas da vizinha Espanha.

Foi neste contexto que, em dezembro de 1981, por iniciativa e organização da Comissão de Marcha da Federação Portuguesa de Atletismo, com o apoio do Instituto Nacional dos Desportos, Portugal recebeu Albert Galín e César Gómez, representantes da prestigiada Escola de Marcha de Sant Celoni, em Barcelona.

O Seminário de Marcha Atlética decorreu nos dias 11, 12 e 13 desse mês no Centro de Estágio da Cruz Quebrada, integrando um programa abrangente que incluiu sessões teóricas sobre técnica, com projeção de filmes, debates temáticos, sessões práticas na pista do Estádio Nacional e, ainda, a apresentação do plano de treinos do então recordista espanhol Sub-18, Francisco Botonero, bem como a planificação da seleção espanhola Sub-20 para um estágio de um mês na Polónia.

Participaram nesta iniciativa, entre outros, Aires Denis, Luís Dias, José Dias, José Pinto, Albino Silva, Francisco Reis, José Tavares, Jorge Esteves, Paula Machado, Ana Batuca e Artur Ferreira. Uns estavam diretamente ligados à prática e ao treino da especialidade, outros exerciam funções dirigentes ou integravam o corpo de juízes, todos unidos pelo desejo de aprofundar conhecimentos e elevar o nível da marcha atlética nacional.

Albert Galín iniciou-se no atletismo aos 13 anos, em representação da Juventude Atlética de Barcelona, tendo envergado a camisola da seleção espanhola por 14 vezes. Licenciado em Ciências da Educação e doutorado em Pedagogia pela Universidade de Barcelona, exerceu funções como treinador (integrou a Escola Nacional de Treinadores da RFEA) e dirigente. Encontra-se atualmente a preparar uma obra dedicada à história da marcha atlética em Espanha, somando já várias publicações, entre as quais “Història de l’Atletisme a Sant Celoni”.

O livro de memórias agora publicado, com 230 páginas, revela-se de inegável interesse documental e histórico, enriquecendo a biblioteca de O Marchador, que reúne publicações provenientes de diversas partes do mundo. Destacam-se, entre outros, alguns episódios singulares.

Um deles remonta a 16 de abril de 1974, quando o Papa Paulo VI, durante a sua alocução semanal, surpreendeu os fiéis ao anunciar o vencedor de uma prova de marcha atlética disputada entre Roma e Castelgandolfo, perguntando retoricamente: “Sabem quem ganhou?”. A resposta foi “Abdon Pamich”, o célebre marchador italiano, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Roma 1960 e campeão olímpico em Tóquio 1964.

Outros momentos referenciados no livro de Galín incluem a Taça do Mundo de Marcha de 1981, realizada pela primeira vez em solo espanhol, na cidade de Valência, e que contou com a participação inédita da seleção feminina, sendo Albert Galín um dos treinadores. Destaca-se ainda o ano de 1983, quando a Câmara Municipal de L’Hospitalet (Barcelona) lhe prestou homenagem pelo seu papel pioneiro e dinamizador do Grande Prémio Internacional de L’Hospitalet, um evento de referência mundial e que atraiu alguns dos melhores marchadores portugueses da época, nos seus primeiros contactos internacionais, e cuja cidade viria mais tarde a acolher a Taça do Mundo de Marcha, em 1989.

Bem-haja, Albert!