quarta-feira, 10 de junho de 2026

Sobre os comentários à marcha dos nacionais de sub-16 na FPAtletismo TV

Imagem: FPAtletismo TV. Montagem: O Marchador.

Terminadas as provas da primeira jornada dos Campeonatos Nacionais de Atletismo de Sub-16, sábado passado no Seixal, eis que os espectadores da transmissão assegurada pela FPAtletismo TV na Internet foram confrontados com comentários à prova feminina de marcha que podem ter dado origem a interpretações enviesadas.

Enquanto se aguardava pela cerimónia de entrega de medalhas referente a essa competição, as palavras com que o comentador Rafael Lopes se referiu à penalização de 30 segundos imposta à sportinguista Mariana Carvalho foram, no mínimo, muito infelizes e, em última análise, poderiam ser um labéu disparado sobre os juízes de marcha. Descobriu o comentador que Mariana Carvalho tinha cortado a meta em terceiro lugar mas aparecia classificada na oitava posição, percebendo depois que tal se deveria a uma penalização de 30 segundos atribuída à atleta do Sporting Clube de Portugal. Para logo de seguida acrescentar: «Vejam só, terminou (...) e levou 30 segundos de penalização e de terceira no final acaba em termos de... não é secretaria... mas depois de os juízes deliberarem, levou uma penalização de 30 segundos e cai para a oitava posição.»

Não é que os adeptos da marcha e os seus praticantes não estejam já habituados a comentários menos rigorosos da parte de quem, nas televisões, se dispõe e falar de marcha atlética e acaba a revelar ignorância sobre as regras e os procedimentos de ajuizamento nas provas da disciplina. Mas a dúvida deixada no ar pelo comentário de Rafael Lopes bem podia ter sido evitada, sobretudo tendo em conta que foi proferida numa transmissão do canal oficial da entidade que superintende o atletismo em Portugal.

O tom e os trejeitos de voz pareciam indiciar alguma ironia em que a forma de estranheza da expressão escondia uma inexplicável suspeita sobre os procedimentos dos juízes. Talvez o comentador tenha sentido ecos de outras modalidades desportivas onde por vezes se fala de decisões tomadas «na secretaria» (expressão que denunciava uma acusação aos juízes), mas nada justificava que acusasse os juízes de «deliberarem» – ou seja, de se reunirem em complô e, por meios ínvios, relegarem a jovem atleta do Sporting de um lugar de honra (3.ª) para uma posição bem menos relevante (8.ª).

Pode acreditar-se (em benefício da dúvida) que Rafael Lopes quis simplesmente chamar a atenção para o prejuízo que pode advir para um atleta pelo desrespeito das regras desportivas (no caso, as regras da marcha), mas, se foi esse o caso, então a solução foi muito pouco feliz, porque, em vez da pedagogia de chamar a atenção para a importância do aprimoramento da técnica da marcha, enveredou pela dúvida sobre a honestidade dos juízes. Na verdade, a penalização atribuída a Mariana Carvalho só poderá ter resultado do que aconteceu na prova e não depois dela, pelo que não podem os juízes ser responsabilizados pela penalização e muito menos podem os mesmos juízes ser acusados de deliberarem um castigo depois de terminada a prova. Isso é lançar um inaceitável manto de dúvida sobre a actuação dos juízes de marcha.

Talvez uma rápida revisita de Rafael Lopes às regras da marcha e aos procedimentos de ajuizamento pudesse ajudar a evitar futuras escorregadelas como a de sábado passado. E, já agora, ficam os votos de que o comentário expandido naquele momento da transmissão não releve de uma visão clubista facciosa.