sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Birmingham e a salganhada da marcha atlética: como o atletismo está a autodestruir-se

Imagens: OA Sport e Lapresse. Montagem: O Marchador.

Com a devida vénia ao autor e a AO Sport, publica-se de seguida uma versão portuguesa da reflexão de Giulio Chinappi sobre os recentes Campeonatos da Europa de Atletismo de Birmingham, no que se refere sobretudo à marcha atlética, mas também a outros aspectos desse grande encontro bienal do atletismo europeu. O texto original (em italiano) foi publicado esta quinta-feira, 20 de Agosto, e pode ser consultado aqui:

Depois de ter eliminado as distâncias históricas e a identidade da marcha atlética, o atletismo europeu atingiu em Birmingham o seu ponto mais baixo: quatro provas simultâneas, dobragens, pontos de abastecimento congestionados e um espetáculo incompreensível. Ao mesmo tempo, na pista, regulamentos diferentes e privilégios baseados no «ranking» completam o quadro.

Há disciplinas que precisam de ser relançadas e outras que estão a ser destruídas de forma progressiva precisamente por aqueles que afirmam querer relançá-las. A marcha pertence à segunda categoria. Após anos de decisões questionáveis, mudanças de distâncias, supressão de tradições, tentativas de perseguir uma pretensa modernidade e contínuas experiências regulamentares, os Campeonatos Europeus de Birmingham ofereceram-nos o desfecho quase inevitável: uma enorme «salganhada» em que quatro provas são disputadas em simultâneo, homens e mulheres sobrepostos, «maratonistas» e especialistas na distância mais curta a cruzar-se, dobragens a multiplicar-se – e até acompanhar a luta pelas medalhas se torna um exercício para entendidos.

Era difícil imaginar melhor maneira de desvalorizar ainda mais uma modalidade já duramente afetada pelas decisões dos últimos anos. A marcha tinha a sua própria identidade, não precisava de pedi-la emprestada a ninguém. Os 20 km e, sobretudo, os lendários 50 km não eram simplesmente números: representavam décadas de história, campeões, recordes cronométricos, escolas nacionais, confrontos entre gerações. A prova de 50 km, em particular, era a mais exigente não só do atletismo mas provavelmente de todo o programa olímpico, uma prova extrema que exigia preparação específica, resistência física e mental, competência tática e uma gestão do esforço completamente diferente da das distâncias mais curtas.

No entanto, sem qualquer explicação racional, a World Athletics decidiu pôr-lhe fim. Primeiro surgiu a prova de 35 km, apresentada como solução moderna e mais adequada às novas necessidades (de quem?). Uma distância sem verdadeira tradição, introduzida em substituição de outra que tinha uma tradição enorme. Chegado o seu momento, a prova de 35 km mal teve tempo de existir antes de os mesmos dirigentes que a tinham imposto decidirem cancelá-la também. Para 2026 em diante, a marcha atlética internacional adoptou as distâncias de 21,0975 km e 42,195 km: meia-maratona e maratona de marcha.

As próprias designações já dizem muito sobre a confusão cultural que reina nas altas esferas do atletismo. A maratona, de facto, não é uma unidade de medida genérica equivalente a 42 quilómetros e 195 metros. É uma prova com a sua própria tradição, a sua própria mitologia, uma história cujas raízes se encontram primeiro na Grécia Antiga e depois nas origens dos Jogos Olímpicos modernos e que transformou essa distância aparentemente irracional, adoptada em Londres em 1908, num dos símbolos universais do desporto. O mesmo se aplica à meia-maratona, que se tornou, ao longo do tempo, uma especialidade autónoma da corrida de estrada. A marcha, por seu lado, tinha outras distâncias e outra história.

Chamar «maratona de marcha» a uma prova de 42,195 km significa confundir duas identidades diferentes, numa tentativa infantil de tornar a marcha mais reconhecível através do prestígio de outra disciplina. Com o objetivo declarado de promover uma modalidade, decide-se, portanto, apagar progressivamente as suas referências históricas, adoptando nomes e distâncias pertencentes a outra. O resultado não é uma maior compreensão, mas sim uma maior confusão. Durante décadas, bastava dizer «maratona» e todos sabiam de que prova se estava a falar. Bastava dizer «20 km» ou «50 km» e a referência era igualmente imediata. Hoje, é preciso distinguir entre maratona de corrida e maratona de marcha, entre meia-maratona e meia-maratona de marcha. Uma reforma que pretendia tornar a disciplina mais acessível ao público conseguiu a extraordinária proeza de tornar necessário um esclarecimento linguístico que antes não era necessário.

Birmingham levou ao extremo esta lógica de desvalorização da marcha atlética. As quatro provas de marcha, masculinas e femininas, nas duas distâncias, foram concentradas no mesmo momento e no mesmo circuito exíguo, com apenas um quilómetro de extensão. O resultado na transmissão televisiva foi desastroso: atletas que disputam provas diferentes cruzam-se continuamente; homens e mulheres das distâncias longa e curta percorrem os mesmos troços, mas pertencem a quatro classificações diferentes; as ultrapassagens tornam-se incessantes; uma ultrapassagem pode ser um ataque decisivo para uma medalha ou simplesmente a ultrapassagem de um atleta que está a disputar outra prova e se encontra numa fase diferente da sua própria prova.

O espectador, portanto, não pode confiar no que vê: tem de consultar constantemente os gráficos, o cronómetro, o número de voltas, a cor do dorsal e a distância. Se possível, deve ficar atento à cronometragem em direto «on-line» para perceber mais qualquer coisa. Por outras palavras, tem primeiro de decifrar a competição e só depois é que pode tentar acompanhá-la. Tinha-se dito que este formato aumentaria a visibilidade da marcha: na realidade, quatro provas simultâneas não geram quatro vezes mais atenção, mas sim uma fragmentação da atenção em que nenhuma das quatro competições recebe o espaço que mereceria.

Também do ponto de vista técnico surgem consequências que não deveriam existir numa prova de tão alto prestígio. Os próprios atletas, desde o momento em que foi anunciado o programa absurdo, alertaram para o risco de congestionamentos nos pontos de abastecimento: quando concorrentes de quatro provas diferentes chegam ao mesmo troço, têm de deslocar-se lateralmente, localizar o seu ponto de abastecimento, abrandar e retomar o ritmo. As trajetórias cruzam-se, os grupos sobrepõem-se, homens e mulheres de provas diferentes podem encontrar-se no mesmo espaço precisamente no momento em que a ação se torna menos linear. Um atleta pode, assim, ser perturbado não por um adversário direto, mas por alguém que está a disputar outra competição. É difícil imaginar uma demonstração mais evidente de como a lógica desportiva foi sacrificada em nome da compressão do programa.

A tudo isto acresce a impossibilidade da «dobradinha». No passado, um especialista capaz de destacar-se nas duas distâncias podia tentar conquistar duas medalhas, ou mesmo dois ouros, feito que, nas distâncias tradicionais, só foi alcançado pelo lendário polaco Robert Korzeniowski, nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. Hoje, com as provas a decorrerem em simultâneo, essa possibilidade é eliminada não por uma limitação técnica mas simplesmente por uma escolha de calendário, devido à qual um feito desportivo potencialmente memorável se torna materialmente impossível. Também neste caso, enquanto se proclama a vontade de criar novos motivos de interesse, elimina-se possíveis histórias para contar.

A marcha tornou-se assim o laboratório onde o atletismo internacional experimentou uma das suas piores tendências: alterar continuamente o que já funcionava, na convicção de que qualquer mudança equivale a modernização. A prova de 50 km era demasiado longa? Fora com a prova de 50 km! A prova de 35 km, recém-criada, não convence? Fora também com a prova de 35 km! A prova de 20 km tem uma história consolidada? Transformemo-la numa meia-maratona! As provas precisam de maior visibilidade? Realizemo-las todas em conjunto! Cada suposto problema é tratado criando um problema ainda pior.

Birmingham, no entanto, demonstra que a questão não se limita à marcha. Mesmo nas provas em pista, o público vê-se confrontado com uma proliferação de sistemas de qualificação diferentes que parece terem sido concebidos sem uma filosofia comum: nos 1500 metros e nos 3000 metros obstáculos, a qualificação é feita por classificação, sem repescagens por tempo; nos 800 metros, por outro lado, combina-se a classificação e os melhores tempos; nas provas de velocidade até aos 400 metros, surge, por sua vez, o controverso «bye» para os doze primeiros da tabela de qualificação. No que diz respeito a estas últimas provas, além disso, os doze privilegiados que acedem directamente às meias-finais não são necessariamente os doze atletas que tiverem registado os melhores tempos da época. Um atleta pode, portanto, ficar fora dos doze primeiros, mesmo estando em melhor forma, ou mesmo tendo obtido recentemente desempenhos cronométricos superiores aos de alguém que beneficie da isenção.

A distorção torna-se especialmente grave nos 400 metros, a chamada «volta da morte». Se, de facto, poupar uma eliminatória nos 100 metros significa evitar uma prova de poucos segundos, disputar menos 400 metros significa evitar um esforço de altíssima intensidade que pode deixar consequências importantes nas horas seguintes e no dia seguinte. Entre o 12.º e o 13.º atleta da classificação pode haver uma diferença mínima, mas um chega às meias-finais sem ter corrido a ronda anterior, enquanto o outro tem de enfrentá-la com mais 400 metros nas pernas. O atletismo era um dos desportos mais simples de compreender. Quem corre mais depressa ganha. Quem salta mais alto ou mais longe ganha. Quem lança mais longe ganha. Nas eliminatórias, os primeiros passam e, por vezes, os melhores tempos são repescados. Era precisamente esta simplicidade um dos seus mais importantes pontos fortes. Hoje, parece haver uma vontade quase sistemática de complicá-lo.

Birmingham representa o ponto culminante desta deriva, pois concentra no mesmo campeonato todos os defeitos acumulados nos últimos anos: o fim das tradições, designações artificiais, competições sobrepostas, privilégios baseados no «ranking», sistemas de qualificação diferentes e dificuldades crescentes para o público compreender o que está a acontecer. Mas, reiteramos, nenhuma disciplina foi tão maltratada como a marcha atlética.

A salganhada de Birmingham não é, portanto, um incidente organizacional isolado. É o resultado final de uma concepção segundo a qual a história do desporto é um obstáculo, as modalidades têm de ser continuamente reinventadas e o público pode ser conquistado multiplicando artifícios, em vez de se oferecer competições claras, reconhecíveis e respeitadoras da própria tradição. Quem hoje dirige o atletismo continua a falar de inovação, visibilidade e modernização, mas os resultados mostram o contrário: estas novas fórmulas não só não atraem novo público como acabam por desanimar até mesmo quem sempre acompanhou todas as provas dos campeonatos da Europa, dos mundiais e dos Jogos Olímpicos, mesmo quando disputadas a altas horas da noite.